O presidente Jair Bolsonaro mantém sua estratégia de fortalecer cada vez mais os vínculos com sua principal base e faz isso de diversas formas, desde organizar campanhas que dialoguem com os setores evangélicos, até alguns “favores” extremamente questionáveis. No último mês, realizou transmissões ao vivo com líderes das igrejas evangélicas, “oração em favor das autoridades e do povo brasileiro”. Essa aproximação não é de graça, as emissoras evangélicas que tem orado junto ao presidente receberam do atual governo 10% de todos os gastos da Secretaria da Cultura.

Ainda sobre as aproximações, destacamos o convite ao deputado Fábio Faria (PSD-RN), casado com a evangélica Patrícia Abravanel, para assumir o Ministério das Comunicações. Essa aproximação faz parte da estratégia do presidente Bolsonaro de afinar a relação com o Congresso – reforçando o elo com o centrão e os evangélicos. A indicação agrada a Frente Parlamentar evangélica que tem um pacote de reivindicações para ampliar concessões de rádio e TV.

Essas descaradas aproximações, na análise da Magali Cunha, acontece com mais força em um momento em que o governo está enfraquecido e busca aproximação com o centrão, bloco fisiológico de partidos que reúne, entre suas lideranças, parlamentares ligados às frentes religiosas cristãs. “Em nome do negócio político, os olhos dos religiosos se fecham às injustiças do governo e às necessidades da população enquanto os valores da tradição cristã são relativizados”, avalia a pesquisadora.

Nesse contexto, o pastor batista Brian Kibuuka analisa as diversas variáveis dessa conexão e enxerga possíveis fissuras, mesmo no campo conservador da base bolsonarista. Há um limite. Sua previsão é de que a partir da postura de Bolsonaro na pandemia, haja uma possibilidade dessa base migrar do bolsonarismo para o lavajatismo. “Parte dos conservadores evangélicos já roeu a corda e não consegue mais apoiar, porque passou muito do limite que eles toleram”, acredita.

No entanto, há aqueles que, por vários motivos, não “arredam o pé” dessa aproximação, onde o céu é o limite no que diz respeito às atrocidades do governo: dois dos principais apoiadores do presidente Jair Bolsonaro estão em conflito. Primeiro, Olavo de Carvalho, o mais importante conselheiro de Bolsonaro, gravou vídeo reclamando de sua gestão e dizendo que poderia derrubar o governo. O pastor Silas Malafaia saiu em defesa do presidente e publicou um tuíte em que desafia Carvalho e o chama de “astrólogo falido”.

Fundamentalismo e Teologia da Prosperidade

O mês foi marcado pelos diversos posicionamentos em todo o país em relação à necessidade de abertura das Igrejas evangélicas com inúmeras justificativas. Em contrapartida dessa narrativa, muitos países que têm tido sucesso no combate ao novo coronavírus estão vendo um aumento no número de novos casos devido a eventos religiosos e outras situações de vulnerabilidade, como o retorno de expatriados. No Brasil, alguns pastores evangélicos e lideranças de diversas religiões apontam a necessidade de manterem as igrejas fechadas até que haja cientificamente comprovada segurança de reabertura.

Em relação àqueles pastores que lideram as grandes Igrejas e defendem a reabertura, as respostas para as possíveis perdas econômicas têm sido diversas e nada originais.

O pastor Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, está cortando salários e pessoal em sua rede de TV e de rádio, além de ter reduzido os pagamentos para uma parte da estrutura de sua igreja.

Já a cantora e bispa Sônia, da Igreja Renascer em Cristo, tem pedido aos fiéis para doarem mil reais para a igreja para se imunizarem do coronavírus. Segundo ela, existe a possibilidade de facilitar o pagamento, parcelando esse valor em até dez vezes. Também é possível se imunizar a partir de R$ 300.

No campo da política institucional, os abusos não acontecem sem reação. O ministro Edson Fachin, do Tribunal Superior Eleitoral, propõe aprovar cassações de mandato por abuso de poder religioso ainda este ano, e prevê a cassação da vereadora Valdirene Tavares dos Santos, pastora da Assembleia de Deus, que utilizou de sua atuação como pastora para se eleger.

Racismo / Intolerância religiosa

Em live no instagram, o pastor Rodrigo dos Santos chama membros negros e pobres da igreja de sujos e encardidos. Após a repercussão, ele se desculpou dizendo que foi uma frase infantil.

A Igreja Universal de Angola – uma das milhares igrejas de Edir Macedo pelo mundo – rompe com a Igreja brasileira com graves acusações, como racismo, imposição de vasectomia e de aborto, discriminação, abuso de autoridade, entre outros. No Brasil, a Igreja Universal se defende e nega as acusações. É válido lembrar que há diversos relatos sobre a Igreja Universal que a acusam de impor a vasectomia aos pastores com a justificativa de que uma família constituída de filhos dificultaria a dedicação integral à igreja e as possíveis realocações às diferentes cidades e países.

O pastor pentecostal da Igreja Geração Jesus Cristo, Tupirani da Hora Lores, pediu em culto que Deus “massacre” os judeus como na segunda guerra mundial. Não é a primeira vez que o pastor se manifesta de forma intolerante. Em 2012 ele foi condenado por discriminar a igreja Assembleia de Deus .

Fakenews

A Carta Capital trouxe uma interessante reportagem sobre os cristãos traficantes de notícias falsas para benefícios de seus interlocutores políticos e suas consequências na conjuntura brasileira. Em uma engenharia sofisticada, esses cristãos se utilizam da fé para disseminarem essas notícias, “e ainda debocham da fé cristã ao usarem e abusarem das palavras de Jesus: ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’”.

 

Contranarrativas

Apesar das notícias muitas vezes surpreendentes do grupo dominante evangélico, diversas resistências seguem em curso.

Nas ações antifascistas que aconteceram no último mês, puxadas pelas torcidas organizadas nas ruas de São Paulo, divulgou-se a notícia do jovem evangélico batista, morador da Brasilândia e militante do PSOL, Danilo Pássaro, como um dos organizadores do ato pró-democracia. Pássaro é formado em teologia e se articulou a movimentos sociais antifascistas.

Como respostas à morte de George Floyd nos EUA, o jovem batista Jackson Augusto aborda as relações entre negritude e evangélicos no Brasil e mundo. “(…) devemos olhar para a luta pela justiça como um caminho para um novo mundo. Não é possível melhorar uma igreja que nasce escravocrata. Não é possível melhorar um mundo – o mundo dos brancos –  que já surge a partir de nosso extermínio. Temos que dar voz a um novo mundo, a uma nova forma de produzir a espiritualidade evangélica, a uma outra igreja que nasce a partir dos pobres, dos negros, das mulheres, dos LGTBQIA+, dos condenados desta terra. Uma igreja que não vai somente chorar pelo extermínio da população negra, mas que vai se levantar e lutar contra qualquer forma de opressão, que vai ser instrumento de libertação para todos os povos desta terra, uma igreja que não quer uma paz superficial e branca – que na verdade é o silenciamento dos oprimidos enquanto são mortos – mas que luta por justiça, uma justiça profunda e concreta que é irredutível perante os opressores deste mundo. Afinal, não existe paz sem justiça, e não existe um mundo novo sem luta pela libertação.

Jackson, junto a diversos homens e mulheres negras e evangélicas, construíram um manifesto para que a igreja se posicione a denuncie o racismo como pecado e como pecado estrutural.

Também se organizaram coletivamente o grupo Evangélicos pelo Estado de Direito e mais de 60 entidades e movimentos sociais contra as ações criminosas do governo federal. A proposta é construir uma Campanha #BrasilPelaDemocracia #BrasilPelaVida que propõe amplo debate e ações em resposta à falta de iniciativa de Bolsonaro em relação à vida das pessoas nesta pandemia.