Notícias das lutas e conflitos na África, Ásia e América Latina nem sempre são fáceis de encontrar. Uma greve geral na Índia não é relatada na imprensa corporativa, nem o assassinato de um ativista de direitos humanos na América Central, nem as notícias de grande interesse humanitário das organizações multilaterais (como as agências das Nações Unidas). À medida que a mídia mundial fica cada vez mais homogeneizada pelos interesses da ideologia corporativa, mais e mais notícias sobre os povos do mundo desaparecem. Há tão pouca informação básica, por exemplo, sobre a fome no mundo e sobre as lutas para alimentar os famintos. Não estamos interessados ​​apenas nos conflitos e no sofrimento. Estamos igualmente interessados ​​nas lutas dos povos para enfrentar esses desafios amplos.

Nós, no Tricontinental, enviaremos uma carta semanal, uma nota curada com informações de uma parte do mundo, que oferecerá uma janela para algumas das lutas e conflitos do nosso tempo. A carta estará disponível por assinatura – e é gratuita.

Para saber mais sobre o carta semanal, ou para nos enviar histórias que você acha que devemos abordar, por favor escreva para [email protected]. Nós não prometemos usar todas e cada uma das suas sugestões, mas nós as recebemos bem. Se você tiver objeções a qualquer coisa que tenhamos, entre em contato conosco. Pode haver momentos em que poderemos publicar sua crítica como parte de nosso mandato para estimular o debate.

 


Nas últimas semanas, grupos de pessoas revoltadas em alguns dos municípios mais pobres da África do Sul atacaram pequenas lojas em seus próprios bairros. A maior parte dessas lojas pertencem a imigrantes, ou os empregam. Essa tendência xenófoba remonta à crise de 2008. Os custos das dificuldades econômicas são assumidos por uma parcela dos vulneráveis que fica cada vez mais pobre e, em seguida, direciona sua raiva a outra parte dos vulneráveis, nesse caso, os trabalhadores imigrantes. Enquanto essas lojas são incendiadas, o roubo silencioso do capitalismo continua sem ser contestado. Nesse contexto, é importante lembrar organizações como o Sindicato dos Trabalhadores Industriais e Comerciais que construíram solidariedade por toda a África Austral e produziram uma dinâmica histórica e tradições de dignidade que perduram até hoje. São essas organizações que lutaram arduamente para criar uma consciência socialista contra a armadilha barata do nacionalismo étnico. Não haveria vitória do povo sul-africano contra o apartheid se não fosse por sua difícil luta.


Na semana passada, a Agence France Presse pôs as mãos em um relatório preliminar da ONU chamado Relatório Especial sobre o Oceano e a Criosfera na Mudança Climática. Esse documento de 900 páginas é um estudo dos oceanos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o órgão da ONU que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2007. Os trechos disponíveis nos expõem a uma leitura arrepiante. “Os mesmos oceanos que nutriram a evolução humana”, diz o documento, “estão prontos para desencadear a miséria em escala global, a menos que a poluição de carbono que desestabiliza o ambiente marinho na Terra diminua drasticamente”.

A menos que haja cortes profundos nas emissões de carbono geradas pelos seres humanos, pelo menos 30% do pergelissolo (terra, gelo e rochas permanentemente congelados) de superfície do hemisfério norte poderão derreter nas próximas oito décadas. Isso significaria que em 2050 os oceanos subirão e os “eventos extremos relacionados ao nível do mar” destruirão ilhas e cidades baixas. Poucos cientistas estão convencidos de que o aquecimento pode ser controlado no limite de 1,5 ° C; eles acreditam em 2ºC. Com esse aumento, os oceanos subirão o suficiente para desalojar mais de um 250 milhões de pessoas, o equivalente à população inteira do Brasil e da Argentina juntas.

O relatório especial final sobre o oceano será divulgado em 25 de setembro, dois dias após uma cúpula especial de ação climática organizada pelo secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, em Nova York. No final de agosto, Guterres falou na Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento Africano, onde observou que poucas coisas prejudicam tanto o desenvolvimento como desastres.ambientais Ele tinha em mente o terrível ciclone Idai que atingiu Moçambique, destruindo 90% da área em torno da cidade de Beira.


O céu escuro persiste sobre a costa do Brasil, onde estão as principais cidades do país. Este ano, houve 40.341 incêndios na Amazônia, a maior taxa desde 2010. O presidente do país, Jair Bolsonaro, recusou-se a admitir a gravidade da situação, culpando as ONGs pelos incêndios. A língua de Bolsonaro, dos mineiros e dos fazendeiros é genocida, e seu comportamento em relação ao planeta é aniquilacionista. Estas são pessoas perigosas, com motivações financeiras que sobrecarregam a humanidade. Enquanto isso, o acampamento Marielle Vive, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), enfrenta uma ameaça de despejo. O problema deles é a falta de terra e de dignidade, para as quais parece não haver solução. Então, eles se tornaram sua própria solução. Este é o mundo em que vivemos, um mundo onde pessoas comuns se estabelecem em terras pertencentes a um especulador imobiliário, constroem uma comunidade naquela terra, planejam fazer agricultura agroecológica e, ainda assim, é essa comunidade que deve ser desfeita. A dignidade deles não é relevante. Em seus ossos, eles e elas sabem como é ser palestina ou caxemire, ou ser qualquer uma daquelas pessoas que são retiradas de suas terras para que os especuladores possam construir um estacionamento ou um shopping. Podem ouvir a língua que experimentou a insurgência. Ouvem a língua da luta de classes que sai da boca da elite: o tom abafado do veredito do juiz, o rugido do escavadeira, o som angustiante da bomba guiada a laser. Como será a linguagem deles e delas da luta de classes?


Em uma recente entrevista ao Brasil de Fato, o diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Vijay Prashad, aborda a atual realidade política do Brasil e do mundo. Uma realidade afetada pelas guerras híbridas e pelo surgimento de governos neofascistas. Como Prashad aponta, “a questão não é ter a análise correta sozinho, mas esclarecer como entendemos a atual situação. Diferente do fascismo das décadas de 1920 e 1930, os homens fortes de hoje não precisam de uma ditadura porque conseguiram esvaziar a democracia. Baseado nesse entendimento do presente e do passado, os movimentos sociais e políticos podem traçar estratégias e buscar oportunidades para construir poder popular de trabalhadores e camponeses.


A ataque antidemocrático ao povo da Caxemira acontece ao mesmo tempo em que o povo da Argentina votou em sua primária para afirmar categoricamente que está farto da política de austeridade. Imaginar a história como uma linha linear que se move em uma direção progressiva é desconcertantemente incorreto. É romântico acreditar que a história é conservadoramente circular – de modo que a mudança é fundamentalmente impossível – ou que a história é progressivamente linear – de modo que tudo melhora de maneira científica. Nenhuma dessas visões são plausíveis. A história humana é uma luta entre a imaginação por uma vida melhor e as restrições do presente. A história pode se mover em zigue-zagues, mas em termos temporais ela é um quebra-cabeça. Um grande número de eventos significativos parece nos atingir em frequências cada vez mais rápidas. É difícil acompanhar as notícias, quanto mais seguir o que está acontecendo em cada país. Para fornecer um mapa modesto para navegar em alguns desses eventos, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social produzirá um Alerta Vermelho regular – uma breve avaliação de duas páginas das principais crises que podem ser facilmente impressas e distribuídas. O primeiro – que está nesta carta semanal – é sobre a Caxemira.