Notícias das lutas e conflitos na África, Ásia e América Latina nem sempre são fáceis de encontrar. Uma greve geral na Índia não é relatada na imprensa corporativa, nem o assassinato de um ativista de direitos humanos na América Central, nem as notícias de grande interesse humanitário das organizações multilaterais (como as agências das Nações Unidas). À medida que a mídia mundial fica cada vez mais homogeneizada pelos interesses da ideologia corporativa, mais e mais notícias sobre os povos do mundo desaparecem. Há tão pouca informação básica, por exemplo, sobre a fome no mundo e sobre as lutas para alimentar os famintos. Não estamos interessados ​​apenas nos conflitos e no sofrimento. Estamos igualmente interessados ​​nas lutas dos povos para enfrentar esses desafios amplos.

Nós, no Tricontinental, enviaremos uma carta semanal, uma nota curada com informações de uma parte do mundo, que oferecerá uma janela para algumas das lutas e conflitos do nosso tempo. A carta estará disponível por assinatura – e é gratuita.

Para saber mais sobre o carta semanal, ou para nos enviar histórias que você acha que devemos abordar, por favor escreva para [email protected]. Nós não prometemos usar todas e cada uma das suas sugestões, mas nós as recebemos bem. Se você tiver objeções a qualquer coisa que tenhamos, entre em contato conosco. Pode haver momentos em que poderemos publicar sua crítica como parte de nosso mandato para estimular o debate.

 


As relações entre a Rússia e a China atingiram um “nível sem precedentes”, nas palavras do presidente russo Vladimir Putin. Por que Rússia e China consolidaram esse novo arranjo? Primeiro, eles se uniram devido a pressão de longo prazo dos Estados Unidos e seus aliados que buscam desestabilizar a soberania tanto da China quanto da Rússia. Em segundo lugar, os Estados Unidos tentaram fazer com que a China renunciasse suas vantagens econômicas em relação às empresas americanas, o que levou à atual guerra comercial. Após a expulsão da Rússia do G8 e das sanções ao país, a Rússia, que procurava fazer parte da Europa desde a queda da URSS, voltou-se para a Eurásia, em particular para a China. Buscando romper com  a dependência dos mercados ocidentais, a China experimentou esquemas de pagamento de transferências dentro do país para aumentar a demanda doméstica e começou a desenvolver novos mercados. Nas últimas duas décadas, a China vem buscando abertamente a criação de uma ordem mundial multilateral para equilibrar a ordem unilateral produzida pelo Ocidente após a queda da URSS. Nesse contexto, uma guerra híbrida liderada pelos EUA continua a tentar impor seu domínio na região, o que só tem feito Rússia, China e seus aliados regionais se aproximarem mais e mais.


As correntes que prendem a classe trabalhadora não são meramente materiais. Elas também estão em suas mentes, sufocando a capacidade da maioria dos seres humanos de ter uma compreensão clara de nosso mundo. Sufocados, os trabalhadores (que antes eram adeptos dos movimentos socialistas e comunistas) caminham em direção ao fascismo. No início do século XX, Antonio Gramsci escreveria que a classe trabalhadora foi em direção aos partidos fascistas não por causa da clareza, mas por causa de sua consciência contraditória. Estamos em tempos difíceis, nos quais os rumos da história parecem favorecer a extrema direita – incluindo forças que dividiram nossas sociedades em hierarquias sociais, como casta, raça, nacionalidade e religião. Qual é o antídoto para essas ideologias e instituições de hierarquia social? Construir organizações populares – incluindo sindicatos e organizações comunitárias. Em meio à ascensão global do neofascismo, que conseguiu explorar tais divisões, K. Hemalata, da Central de Sindicatos Indianos, fala com convicção sobre a necessidade de os sindicatos abordarem questões de hierarquia social (patriarcado, casta, e fundamentalismo) e de organizar os trabalhadores onde eles vivem, não apenas onde eles trabalham.


Em um bunker na Casa Branca, o presidente dos EUA, Donald Trump, mexe os polegares. Seus conselheiros – John Bolton e Mike Pompeo – querem que ele aniquile o Irã. Ele concorda, mas não consegue decidir. No Twitter, ele já declarou guerra, mas sua mão paira sobre a ordem, que ainda não assinou. Mas pode fazê-lo – a qualquer momento. A recente escalada se dão em um contexto no qual os EUA travam uma guerra híbrida e informacional contra o Irã há mais de uma década – uma guerra que busca atingir a confiança de um povo. O objetivo é causar dissenso, caos, medo e paralisar o país. Porém no meio das acusações que buscam retratar o Irã como um agressor, é necessário lembrar-se da História e do golpe apoiado pela CIA em 1953 e as intervenções mais recentes dos EUA na região da Síria, Iraque e Líbano.


Surgem novas provas do conluio entre o juiz e o procurador do julgamento de ]lula, graças às excelentes matérias divulgadas pelo The Intercept. As motivações políticas agora estão registradas: eles, em nome das elites, não queriam que Lula – que continua muito popular – fosse o candidato à presidência da República nas eleições de 2018 pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Há agora mais clareza ainda acerca da perseguição política contra Lula. Mas o que ainda deixa dúvidas é qual exatamente as acusações que pesam contra ele. A perseguição de Lula não é uma história que diz respeito apenas a ele e ao Brasil. É um caso exemplar da forma como as elites e o imperialismo instrumentalizam a democracia para, na realidade, minar as aspirações democráticas do povo. É a metodologia da democracia sem democracia, a aldeia Potemkim do liberalismo.


“Pela humanidade, camaradas”, escreve Frantz Fanon no final de sua monumental obra Os condenados da terra, “devemos virar a página, devemos elaborar novos conceitos e tentar colocar em marcha um novo homem”. Desigualdades terríveis em nosso mundo mantêm a humanidade dividida. Tais desigualdades apareceram esta semana quando vimos o The Intercept publicar provas de que o ex-juiz Sergio Moro conspirou para prender Lula de modo a evitar que o Partido dos Trabalhadores pudesse ganhar as eleições no Brasil. O ataque aos defensores dos direitos humanos continuam pelo mundo, desde as ameaças de deportar a feminista afegã Zarmena Waziri da Dinamarca, à prisão de Ola Bini, no Equador – onde se encontra há dois meses devido a sua militância em organizações de direitos humanos. SE você não sente raiva – seja qual for sua orientação política – em relação a esses casos, então, a cultura da democracia encontra-se esgotada.  Você será sugado pelo sorriso de canto de boca dos poderosos que são protegidos pelo desengajamento das massas. Desesperança é o pior tipo de rendição. Sinta raiva porque Lula e Ola estão presos, porque Zarmena Waziri está sendo deportada para os braços do Talibã, porque as empresas de mineração destroem a terra e os sonhos dos mineiros, e porque a experiência da Venezuela está sob a grave ameaça da guerra híbrida. Sentir raiva é abrir a porta para novos conceitos e para um novo futuro, para podermos virar a página