Queridos amigos e amigas,

Há alguns dias, li um estudo sobre deficiência de vitamina A, que deixa meio milhão de crianças cegas. São dados chocantes. Foi quando li uma série de relatórios da Organização Mundial da Saúde sobre as doenças relacionados a pobreza – diarréia, malária e assim por diante. Cada uma dessas doenças tem soluções simples – mas que não estão disponíveis para os pobres. Altos índices de doenças respiratórias que atingem as mulheres da classe trabalhadora mais pobres, pelo fato de serem forçadas a cozinhar em fogões que geram uma grande quantidade de monóxido de carbono. Projetos de fogões sem fumaça podem ser encontrados em quase todas as universidades – e ainda assim, esses fogões não são disponibilizados para os trabalhadores. Por não ter dinheiro, os trabalhadores ficam cegos e sofrem de envenenamento dessa fumaça.

A prevalência dessas doenças entre os pobres traz mais uma vez evidências da desumanidade de nossos tempos. Enquanto escrevo isso, o Partido Comunista da Índia (Marxista) delibera em seu 22º Congresso em Hyderabad. Os delegados deste Congresso estão tentando elaborar a linha política para o partido. Aqueles que reviram os olhos e se perguntam sobre a relevância da esquerda nestes tempos devem prestar atenção às doenças que afetam diretamente os pobres. Não há interesse político dos partidos liberais em desenvolver políticas sérias para lidar com essa abominação. Permanece a preocupação com a esquerda em se concentrar nessas doenças e na fome, no analfabetismo e na guerra – os perigos de nossos tempos. No Newsclick desta semana, fiz uma breve nota sobre o Congresso do Partido e sobre a necessidade da esquerda. Você pode ler aqui.

Por que os governos são incapazes ou não querem colocar no centro de sua agenda essas perversidades? Até mesmo os governos que são mais simpáticos aos trabalhadores mais pobres e tem interesse em elaborar uma agenda para resolver esses problemas estruturais, encontram-se presos pela estrutura política atual. Há duas semanas, fui na rádio CS Soong para falar sobre o primeiro Documento de Trabalho da Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social. Conversamos por uma hora sobre algumas dessas questões – problemas persistentes e a necessidade de encontrar soluções para eles. Você pode ouvir o programa de rádio aqui. É baseado no Documento de Trabalho, que está disponível para download gratuitamente aqui.

A pobreza se manifesta de muitas formas, entre elas está a violência sexual contra meninas e mulheres da classe trabalhadora. A Índia hoje é tomada por dois incidentes brutais, um foi o seqüestro, confinamento, estupro coletivo e assassinato de uma menina de oito anos de uma família pobre em Jammu e Caxemira, e o outro foi o estupro de uma jovem mulher na casa de um político. Em ambos os casos, o partido da direita indiana, o BJP, estava envolvido. O político é do BJP e o BJP enviou sua equipe para defender os homens que estupraram a menina de oito anos. Esses incidentes são parte de uma cultura de violência, mas mais especificamente são ataques a meninas e mulheres de comunidades vulneráveis ​​que foram alvo de homens que se consideram superiores não apenas como homens, mas por sua religião, sua casta, sua classe e seus filhos e filiações políticas.

Os incidentes brutais, o papel do BJP e a cumplicidade do Estado foram as causas que levaram o povo para as ruas. Manifestações por todo o país pressionaram por uma solução do problema. É por causa desses protestos que os criminosos foram presos. Eles estão na prisão, mas a cultura desse tipo de violência continua nas ruas.

Meu relatório sobre os estupros, sobre a cultura da violência e sobre os protestos pode ser lido aqui. A imagem acima é do designer Orijit Sen. Era um cartaz visto nos protestos.

Alegações de outro ataque químico – desta vez em Douma (Síria) – inundaram a mídia global. A Organização das Nações Unidas para a Proibição de Armas Químicas (OPCW) foi pressionado por suas responsabilidades de entrar na Síria e investigar a alegação. Antes que a equipe da OPCW pudesse entrar no país em Beirute, os Estados Unidos, o Reino Unido e a França bombardearam alguns locais da suposta produção de armas químicas pelo governo sírio. O bombardeio pareceu coordenado com os russos. Ninguém queria cometer erros e pressionar os russos e iranianos para um conflito mais amplo, o que significa um ataque a Israel ou aos interesses dos EUA na região (a base naval dos EUA no Bahrein, por exemplo). O ataque parecia motivado inteiramente por relações públicas no Ocidente – como lidar com as expectativas estabelecidas pela “linha vermelha” de Obama em 2013. Nenhuma estratégia séria parece motivar essas investidas.

O que é estranho nessa corrida por iniciar o bombardeio, e que eu enfatizei em um relatório rápido para a Alternet que você pode ler aqui, é que se o governo dos EUA já tinha informações sobre esses locais, por que não os bombardearam em 2017 (durante o bombardeio anterior de Trump)? Por que não entregou essa informação à OPCW em 2013 (para fortalecer seu trabalho no decorrer daquele ano)? E por que ela bombardeou locais com armas químicas que liberariam gases e líquidos no ar e nas águas subterrâneas?

Há tantas incertezas sobre o conflito e ainda sim tanta certeza relatada pela mídia global.Não há disposição para fazer perguntas básicas, apesar do fato de termos muitas razões para não confiar no governo dos EUA como a primeira (e muitas vezes única) fonte de informação. A Síria está certamente sendo destruída. Isso não temos dúvida. As discussões devem centrar-se em torno da questão da reconciliação política, como argumentamos em nosso Dossiê do Tricontinental sobre a Síria (download gratuito aqui). Mas este não é o foco da esquerda. Ela não está focada em se diferenciar dentro de um largo debate que não é linear.

O custo para os Estados Unidos deste último bombardeio na Síria foi próximo de US $ 250 milhões (o custo dos 112 mísseis tomahawk somaram US $ 224 milhões). Isso não inclui os custos para os cidadãos do Reino Unido e da França. Enquanto isso, por exemplo, o povo de Flint, Michigan, está sendo envenenado pela terrível água produzida por seu município criminoso e por velhos canos de chumbo quebrados. Substituir esses tubos custaria mais de US $ 100 milhões. Mas não há urgência em cuidar dos trabalhadores mais pobres. Não há nenhuma emergência aqui.

Como apresentamos em nosso primeiro Documento de Trabalho, existe uma greve fiscal feita pela plutocracia que não contribui para as finanças públicas. O dinheiro que existe é mandado para a guerra. Trump agora aumentou o orçamento militar dos EUA (ou o que é conhecido publicamente) para US $ 719 bilhões – um aumento de US $ 94 bilhões, que é em si mais do que o orçamento militar anual da Rússia. Esse dinheiro para os militares suga os recursos que poderiam resolver problemas sociais prementes.

Nossos amigos do Instituto de Estudos Políticos e Projeto de Prioridades Nacionais produziram um estudo importante – que você pode ler aqui – A Luta do Povo Pobre nos Estados Unidos. Este estudo revela a extensão da pobreza nos Estados Unidos e a escandalosa falta de consideração por parte dos políticos em prol dos trabalhadores mais pobres. Há cegueira pela plutocracia em um país tão rico. Se eles são tão sem coração para com os seus próprios cidadãos, imagine a atitude em relação às pessoas que moram longe.

Por favor, entre em contato para nos informar sobre o que você tem feito e lido, sobre o que precisamos abordar neste boletim informativo. Você pode me contatar diretamente em [email protected]

Cordialmente, Vijay.