Mapeamento colaborativo do território durante a pesquisa, em os jovens marcam pontos de referência de seu bairro.

 

Por Stella Paterniani e Lauro Carvalho

O Instituto Tricontinental de Pesquisa Social empresta seu nome da Conferência Tricontinental, ocorrida em 1966 em Cuba, que reuniu movimentos revolucionários da Ásia, África e América Latina; e da Mensagem aos Povos do Mundo Através da Tricontinental. Esta última foi uma carta escrita por Che Guevara no ano seguinte, 1967, convocando os povos dos países desses continentes a se indignar, a se levantar contra injustiças, a lutar pela libertação nacional, libertação de seus povos de regimes coloniais, a lutar contra a ofensiva imperialista de então. O Instituto carrega, portanto, esse nome como herança e continuação dessa Conferência, e se propõe a ser um instituto de pesquisa internacional impulsionado por movimentos populares, sindicais, organização políticas desses três continentes, que compõem o que hoje alguns de nós chamamos de Sul Global.

Nosso trabalho é, assim, atuar na linha de frente da batalha de ideias, disputando narrativas sobre os efeitos do capitalismo, sobre a questão agrária e a luta pela terra, sobre geopolítica e soberania e sobre o futuro. Nessas disputas, buscamos produzir o conhecimento em contraponto às visões hegemônicas do capital, da burguesia e da branquidade, endossando, sistematizando e acumulando junto com a produção de conhecimento dos trabalhadores, das mulheres negras, da juventude de periferia, dos trabalhadores sem-terra e sem-teto, enfim, desses múltiplos grupos que têm sido historicamente massacrados pelo capital, pelo capitalismo, pelo colonialismo, pelo neoliberalismo.

Esse é o contexto mais geral de fundação e missão do Instituto, que orienta nossa pesquisa sobre a participação da juventude em periferias do Brasil, uma pesquisa pensada em conjunto com as coordenações nacionais do Levante Popular da Juventude (Levante) e com o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras por Direitos (MTD). Entendemos que a juventude nas periferias tem se organizado, mas em diversas outras formas de organização para além dos movimentos convencionais. Por quê? O que os grupos, coletivos e movimentos que chamam a juventude estão fazendo? Queremos, com isso, dar subsídio aos movimentos populares para entender as novas formas de organização da juventude. Junto com as coordenações dos movimentos apontamos quais seriam os territórios prioritários para a pesquisa para responder às seguintes perguntas: como a juventude tem se organizado nesses territórios? O que tem ganhado os corações e mentes da juventude? Quais grupos e coletivos, e quais atividades, têm mobilizado este e o que tem feito a juventude estar presente com seus corpos, ideias, com seu ânimo e seus ideais? E que juventude é essa, afinal? Que concepções de mundo, de si, de coletividade, de família tem essa juventude?

 

Metodologia: como fazer essa pesquisa?

Temos, assim, junto com o Levante e o MTD, pensado e buscado acumular sobre novas metodologias de pesquisa: como é que se faz uma pesquisa nesses moldes, como construir essa relação entre um instituto de pesquisa e os movimentos populares, como é fazer essa pesquisa militante?

Um dos elementos fundamentais da pesquisa é o militante-pesquisador. Além da batalha de ideias, o Instituto Tricontinental também tem como objetivo construir pontes entre a universidade e os movimentos populares, novas experiências de construção de conhecimento científico e na nossa pesquisa com a juventude contamos com uma dupla de militantes-pesquisadores em cada território de pesquisa. Essa dupla era geralmente composta por um militante do movimento estudantil e outro da frente territorial do Levante ou do MTD. Era fundamental que ao menos um dos militantes tivesse inserção no território da pesquisa.

O que deveriam fazer os militantes-pesquisadores? Primeiro, um mapeamento dos coletivos, grupos, associações e movimentos que atuam no território e que tem participação da juventude. Depois, deveriam tentar se aproximar desses grupos, sempre se apresentando como pesquisador e apresentando a pesquisa, convidando os interessados a participar das próximas etapas e seguir acompanhando algumas atividades e observando a dinâmica de cada grupo e coletivo. Tomar notas é muito importante, assim como manter uma comunicação constante e consistente com a coordenação. Breves relatos das atividades e dos acompanhamentos deviam ser enviados; primeiro, por e-mails; depois, por áudio no WhatsApp.

As próximas etapas eram uma atividade de mapeamento colaborativo e grupos focais. Para a atividade de mapeamento colaborativo, os militantes-pesquisadores convidaram alguns dos jovens que participavam dos grupos inicialmente mapeados. Reunimos, assim, jovens que não se conheciam e que participavam de diferentes grupos, coletivos e associações. O objetivo da atividade era traçar o mapa do território dessa juventude, para além dos mapas de governos ou de internet. Numa sala, abrimos um grande mapa impresso do território e a atividade era dividida em três momentos. No primeiro, os jovens deveriam marcar pontos de referência de seu território – um supermercado, um posto de saúde, as escolas – para irem se familiarizando com a linguagem do mapa. Num segundo momento, deveriam indicar os pontos de interesse específicos da juventude: locais em que a juventude se reúne e que o Google Maps não sabe. Pode ser uma rua onde acontece um baile à noite, a casa de um amigo onde muita gente sempre se reúne, um posto de gasolina que vira ponto de encontro na sexta-feira à noite, uma praça onde quinzenalmente acontecem ensaios de bateria. O terceiro momento, por fim, era o momento no qual propúnhamos o seguinte exercício: o que você gostaria que tivesse aqui? Era o momento de registrar os sonhos, os desejos e as reivindicações, como um show gratuito de uma cantora famosa, um campus universitário, estrutura pública de coleta de lixo.

Dos grupos focais, participavam os mesmos jovens presentes nas oficinas de mapeamento colaborativo. Organizados em pequenos grupos, algumas questões eram apresentadas que iam conduzindo a discussão sobre o tema da participação. O grupo focal ajuda os pesquisadores a perceber como as respostas vão sendo construídas de forma interrelacionada, a partir das respostas das outras pessoas, e como os jovens reagem a determinados temas.

Em um momento mais avançado da pesquisa, desejamos conduzir entrevistas aprofundadas com alguns dos participantes dos grupos focais. Será o momento de contato individualizado mais longo, que nos permitirá ouvir e registrar as trajetórias de participação de algumas pessoas e obter de maneira mais detalhada suas elaborações e opiniões sobre a juventude, a participação e o território.

 

Sobre as periferias e juventude

Para a pesquisa, como já dito, partimos da avaliação de que a juventude nas periferias se envolve, participa, se engaja: mas onde? Como? Com quem se organiza? Para responder a essas perguntas, também levamos em conta outro pressuposto: o de entender a periferia como ativa, criadora, como política. Os territórios onde fizemos a pesquisa são, por um lado, territórios marcados pelos efeitos perversos da desigualdade e da violência, como o desemprego, a precariedade de equipamentos e serviços públicos, a presença do Estado majoritariamente sob sua faceta repressora, produtora de morte, necropolítica, como os movimentos têm denunciado na forma do genocídio da juventude negra de periferia.

Por outro lado, esses territórios são marcados por históricos de lutas, ocupações, luta pela terra, pela moradia, por asfalto, saúde, educação. Luta por direitos. E é importante marcar isso porque recusamos a definição das periferias pela ausência. Recusamos a definição que reduz a vida nas periferias à falta, à urgência, ao limite do possível. Entendemos que a juventude na periferia é uma juventude que luta, que faz seus corres e é também a juventude que sonha, que cria, que inventa para além da miséria do presente. Nesse sentido, não é uma juventude presa no presente.

Reconhecer isso, esse modo de olhar para a juventude, também só é possível quando levamos a sério formulações também tidas como periféricas, como as contribuições revolucionárias de Che Guevara, as elaborações dos lutadores populares, as contribuições de intelectuais indígenas que nos chamam a rever nosso mundo, as proposições do feminismo negro que ousam propor futuros e outras contribuições tidas historicamente como subalternas e marginalizadas.

 

A cartilha e a Campanha de Solidariedade

Dessa pesquisa, organizamos uma cartilha que inicia com uma apresentação, e é composta por duas partes. Na primeira, visamos investigar um pouco que categoria é essa de “juventude”, entendendo-a enquanto uma categoria que foi se modificando ao longo do tempo. Apresentamos, primeiro, o entendimento evolucionista da juventude, como uma etapa universal na vida das pessoas, ligada à delinquência e à irresponsabilidade: uma noção que entende que a juventude deve ser controlada e tutelada. Seguimos apresentando as juventudes heroicas, contestatórias e envolvida em processos de libertação nacional, desde o pós-Segunda Guerra Mundial até os anos 1970. Elaboramos algumas considerações sobre a juventude como construção cultural do capitalismo avançado e sua forma de expressão cultural: a cultura de massas, ao longo dos anos 1980, e a juventude e suas experiências de trabalho precário nos anos 1990. Por fim, apresentamos a juventude como categoria política sendo disputada, inclusive por meio das especificidades da juventude, especialmente no que diz respeito a gênero, raça, classe e sexualidade.

No segundo texto, apresentamos com mais detalhamento nossa experiência de pesquisa. Apresentamos os métodos utilizados e os primeiros indicadores que elaboramos nessa primeira fase da pesquisa. Indicamos, assim, a influência da ideologia neoliberal na juventude, marcada pela concepção individualista de “vencer na vida” e pela desresponsabilização do Estado dos direitos sociais no neoliberalismo. Destacamos a importância do mundo do trabalho e das atividades de geração de renda na vida do jovem, bem como as marcas da violência e do encarceramento nas experiências familiares e afetivas da juventude. Indicamos a cultura como um elemento mobilizador, seja para criar ou usufruir dela: bailes, batalhas de MCs, dança, teatro, saraus aparecem como espaços que canalizam o sentimento de pertença a um grupo, de espaço de criação e de socialização. Por fim, destacamos também a importância dos coletivos para oferecer respostas à juventude, especialmente nesse momento de crise, e observamos como as respostas precisam lidar com a tensão entre o individualismo e o sentimento de coletividade.

Nesse momento, vivemos as Campanhas de Solidariedade, como a Periferia Viva, que promove o encontro do alimento agroecológico da reforma agrária com a panela vazia da periferia. Esperamos que a cartilha sirva para subsidiar o trabalho de base que acompanha essas ações de solidariedade, e esperamos também que a pesquisa do Tricontinental aprenda com elementos que os militantes tragam e compartilhem conosco a partir das experiências dessa campanha. Apostamos na vida de mão dupla do conhecimento.

Ouvimos militantes dizerem que, nesse momento de crise, as pessoas que recebem as cestas de solidariedade estão com os ouvidos atentos e abertos. Com a cesta, levamos junto nosso projeto político. Se há essa brecha para o movimento popular ser ouvido, uma das coisas que a cartilha pode oferecer é lembrar o militante envolvido nessa campanha de também ouvir. Ouvir atentamente, generosamente. Procurar ouvir o que mobiliza, o que movimenta, quais as angústias daquelas pessoas, para ir fazendo novos contatos, conhecendo novas histórias que vão orientar mais entradas de pesquisa que irão, por sua vez, subsidiar mais atuações políticas. A escuta generosa tem tudo a ver com a pedagogia militante e com a pesquisa militante, que se relaciona com práticas libertárias e com recusar definições pela ausência e ideias enquadramentos e respostas prontas. Esperamos seguir nesse movimento contínuo de retroalimentação entre a ação militante e a produção do Tricontinental, visando a pesquisa militante e a atuação popular.

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