Notícias das lutas e conflitos na África, Ásia e América Latina nem sempre são fáceis de encontrar. Uma greve geral na Índia não é relatada na imprensa corporativa, nem o assassinato de um ativista de direitos humanos na América Central, nem as notícias de grande interesse humanitário das organizações multilaterais (como as agências das Nações Unidas). À medida que a mídia mundial fica cada vez mais homogeneizada pelos interesses da ideologia corporativa, mais e mais notícias sobre os povos do mundo desaparecem. Há tão pouca informação básica, por exemplo, sobre a fome no mundo e sobre as lutas para alimentar os famintos. Não estamos interessados ​​apenas nos conflitos e no sofrimento. Estamos igualmente interessados ​​nas lutas dos povos para enfrentar esses desafios amplos.

Nós, no Tricontinental, enviaremos uma carta semanal, uma nota curada com informações de uma parte do mundo, que oferecerá uma janela para algumas das lutas e conflitos do nosso tempo. A carta estará disponível por assinatura – e é gratuita.

Para saber mais sobre o carta semanal, ou para nos enviar histórias que você acha que devemos abordar, por favor escreva para [email protected]. Nós não prometemos usar todas e cada uma das suas sugestões, mas nós as recebemos bem. Se você tiver objeções a qualquer coisa que tenhamos, entre em contato conosco. Pode haver momentos em que poderemos publicar sua crítica como parte de nosso mandato para estimular o debate.

 


Quando a Coroa Britânica conquistou o subcontinente indiano, o roubo de nossas riquezas se tornou rotina. Os britânicos levaram o dinheiro indiano e tornaram a Inglaterra um dos países mais ricos do mundo e deixaram a Índia na desolação. As riquezas indianas foram usadas como investimento inicial para o desenvolvimento da Inglaterra. Toda a revolução industrial inglesa – que estudamos por suas inovações tecnológicas – foi baseada nesse saque da Índia e no comércio triangular de escravos. Os povos da África, Asia e Américas que possibilitaram que as universidades europeias e seus estudantes criarem inovações. Dentro da máquina a vapor de James Watt há sangue de um trabalhador escravizado nas plantations africanas e um camponês indiano faminto. Condenar o império é levantar questões sobre os grandes benefícios que hoje a Grã-Bretanha desfruta devido ao que foi saqueado da Índia. Não há dúvidas de que a Inglaterra, uma pequena ilha, não seria nada sem seu passado imperial. Questionar o império e colocar em questão o caminho que levou a Inglaterra à presente situação. Cem anos depois do massacre em Jallianwallah Bagh (Amritsar, 13 de abril de 1919), que fomentou a luta de libertação do povo indiano, convocamos o governo britânico e a Europa a lembrar e reconhecer essa História, assumindo perante o mundo uma posição que reflita a realidade do passado e a compaixão que ela requer; descolonizar nossas mentes e as estruturas que continuam a produzir pobreza e indignação.


A arte não muda o mundo por si só. Ler um romance ou observar um design pode chamar nossa atenção para os problemas e até mesmo fornecer uma compreensão deles. Mas não pode por si só mudar o mundo. A arte e a literatura nos alertam para as contradições do nosso mundo e mostram como essas contradições não podem ser superadas por sentimentos bons e liberais. A arte revela as supressões, mas as lutas levam essas revelações para além. Mudanças radicais precisam confrontar bloqueios culturais. Para isso, dois tipos de trabalhos são necessários: o cultural, para ampliar a imaginação, e o político, para minar o poder de formas culturais nocivas.


Dia 7 de abril marca 1 ano desde a prisão de Lula quem – no momento de sua detenção – era o favorito na corrida presidencial brasileira. Lula foi condenado por corrupção pelo juiz Sergio Moro que, convenientemente, hoje possui seu assento entre os ministros de Jair Bolsonaro, o candidato da extrema direita contra quem Lula não pode concorrer. A corrupção quid pro quo de um juiz que faz uma vitória presidencial possível ao eliminar Lula da eleição e depois aceitar um emprego no governo do novo presidente eleito com sua ajuda não levantou suspeitas suficientes. Também não gerou espanto as comemorações de Bolsonaro dos abusos de direitos humanos cometidos no Brasil, como a ditadura militar (1964-1985) que torturou 20 mil brasileiros. Enquanto o Brasil lembrava seus mortos, torturados e desaparecidos no dia 31 de março, 55 anos após o golpe, Bolsonaro continua lamentando que o regime não matou o suficiente. De sua cela na prisão, Lula sabe que pessoas ao redor do mundo está a seu lado, gritando Lula Livre!. O povo não é enganado pelos esquemas da direita. Sabem que Lula não está na prisão por corrupção, mas por ter lutado pelos pobres e despossuídos.


Mais uma vez, Israel – com a vingança de Zeus – começou a bombardear Gaza. Os sons e odores da guerra nunca estão ausentes na Faixa de Gaza que, nos últimos 12 anos, tem sido vítima de bombardeios e um bloqueio por parte de Israel. Mahmoud Darwish, o grande poeta palestino, disse que “cantar em uma gaiola é possível e assim é a felicidade”. O que aconteceria se um palestino de Gaza decidisse ver-se como um pássaro e ir até uma árvore para além da cerca? Os perigos desses sonhos de soberania são claros, conforme chegamos a um ano do massacre da Dia da Terra (30 de março) que ocorreu em Gaza no ano passado. Nesta guerra o canário na gaiola não consegue escapar, mas continua a cantar. O canário sonha com um mundo onde as barras de sua gaiola derretem e ele poderá voar de um ponto a outro do planeta.


Há 16 anos, os EUA iniciavam uma nova fase em sua guerra contra o Iraque. As vidas perdidas com armas produzidas pela Raytheon foram, de acordo com o secretário de Segurança estadunidense, Donald Rumsfeld, apenas um “erro”. Mas muitas dessas ações foram crimes de guerra intencionais. Chelsea Manning ainda paga o preço por expor ações como essa. Ela foi presa – de novo –  há duas semanas por se recusar a colaborar com os EUA. E, como você lerá nesta carta semanal, ela não é a única que está contra os EUA. Turquia, Itália e, claro, Venezuela, também mostram sinais de “desobediência”. Ainda que o Trump dos trópicos, Jair Bolsonaro, se una ao presidente dos EUA para discutir uma possível entrada do Brasil na Otan, o líder brasileiro não tem uma resposta para a China no final do dia. A agulha da bússola move-se para longe do domínio estadunidense e, assim, afasta-se também do patriarcado – leia a carta de reivindicações que as organizações de mulheres, na Índia, divulgaram, no momento em que o país, “a maior democracia do mundo”, se prepara para ir às urnas mês que vem.