Notícias das lutas e conflitos na África, Ásia e América Latina nem sempre são fáceis de encontrar. Uma greve geral na Índia não é relatada na imprensa corporativa, nem o assassinato de um ativista de direitos humanos na América Central, nem as notícias de grande interesse humanitário das organizações multilaterais (como as agências das Nações Unidas). À medida que a mídia mundial fica cada vez mais homogeneizada pelos interesses da ideologia corporativa, mais e mais notícias sobre os povos do mundo desaparecem. Há tão pouca informação básica, por exemplo, sobre a fome no mundo e sobre as lutas para alimentar os famintos. Não estamos interessados ​​apenas nos conflitos e no sofrimento. Estamos igualmente interessados ​​nas lutas dos povos para enfrentar esses desafios amplos.

Nós, no Tricontinental, enviaremos uma carta semanal, uma nota curada com informações de uma parte do mundo, que oferecerá uma janela para algumas das lutas e conflitos do nosso tempo. A carta estará disponível por assinatura – e é gratuita.

Para saber mais sobre o carta semanal, ou para nos enviar histórias que você acha que devemos abordar, por favor escreva para [email protected]. Nós não prometemos usar todas e cada uma das suas sugestões, mas nós as recebemos bem. Se você tiver objeções a qualquer coisa que tenhamos, entre em contato conosco. Pode haver momentos em que poderemos publicar sua crítica como parte de nosso mandato para estimular o debate.

 


A Venezuela se encontra na mira das nações imperialistas. Está sujeita não apenas à ameaça de intervenção militar, mas também uma multifacetada guerra ideológica e econômica – uma forma, como mostra nosso 17º dossiê, de guerra híbrida. Esta não é travada necessariamente em um campo de batalha, com exércitos convencionais. É uma guerra ideológica que busca moldar a forma como a realidade é vista, uma guerra de posição para definir o que está acontecendo que leva, eventualmente, a uma guerra de manobra para derrubar um governo. O plano para derrubar a Revolução Bolivariana não surge de nenhuma crise particular dentro da Venezuela, nem de qualquer problema criado pelo atual presidente Nicolás Maduro. É a continuação de uma batalha contra uma agenda que ousa desafiar os interesses do capital global, não importando o custo humano. Esse é o caminho posto pelas forças pró golpe. Querem roubar a alma das pessoas para reduzi-las a zumbis que devem abaixar a cabeça e trabalhar, colocando sua preciosa força a serviço do acúmulo de capital para os tiranos da economia. Mas essa Revolução criou novas esperanças para milhões de pessoas que vão lutar com unhas e dentes para defender não esta ou aquela reforma, mas o grande horizonte de liberdade que se abriu.


A carta desta semana traz em primeira mão uma carta escrita pelo antropólogo Shahram Khosravi, a partir de uma conversa com seu amigo Hamid – um veterano da Guerra Irã-Iraque. No meio das severas sanções e ameaças de guerra do presidente dos EUA, Donald Trump, contra o Irã, que tem levado tensão para a região, o relato de Shahram fornece uma amostra da vida de um iraniano abalado por essas sanções e pela premonição da guerra.

Shashram escreve: “’iranianos se tornaram calculadoras’. A vida está cheia de números. Acompanhar a taxa de câmbio do dólar tornou-se uma obsessão. Todo mundo espera para descobrir em quanto o rial – a moeda do Irã – será cotado. A estrutura da vida social está suspensa. Hamid checa o preço do dólar a cada dia. Longe de sua aldeia, Donald Trump tuíta sobre a guerra contra o Irã. Em 19 de maio, Trump ameaçou os iranianos com um “fim oficial” – uma ameaça de extermínio. Quando ele faz isso, o rial responde e Hamid vê e sente o impacto. As sanções e as ameaças de Trump lançam uma sombra da morte, mesmo que nenhuma arma tenha sido disparada. A morte prematura é tão frequente que agora é vista como normal. O Irã se preocupa com a morte devido às sanções e à retórica da guerra. A escassez de medicamentos já fez suas vítimas.


A carta desta semana traz uma carta aberta ao presidente da Indonésia, escrita por Khamid Istakhori, secretário-geral da Federasi SERBUK, uma grande federação sindical do país. Ele pede ao presidente Jokowi para usar a presidência do país no Conselho de Segurança da ONU, neste mês de maio, para denunciar as violações das leis internacionais cometidas contra a Venezuela. Em diversas ocasiões, neste ano, a oposição venezuelana fez tentativas de dar um golpe de Estado no governo do presidente democraticamente eleito, Nicolás Maduro, todos eles com ajuda dos EUA. Em um artigo recente, os economistas Mark Weisbrot e Jeffrey Sachs estimam que as sanções impostas pelos EUA – ilegais de acordo com as leis estadunidenses e também contrárias ao estatuto da OEA – causaram cerca de 40 mil mortes de civis, entre 2017 e 2018, o que poderia se enquadrar em um caso de “punição coletiva”, tal como define a Convenção de Genebra. De acordo com Istakhori, “pedimos a Jokowi que use a semana final de sua presidência no Conselho de Segurança para dar continuidade ao legado de Sukarno e denuncie as violações das leis internacionais por parte dos EUA e reconstrua a solidariedade entre os países do Sul Global”.


O relatório das Nações Unidas sobre biodiversidade e ecossistemas dá um grave diagnóstico do planeticídio pelas mãos do capital global. A taxa global de extinção de espécies é centenas de vezes mais veloz hoje do que nos últimos dez milhões de anos. Isso se dá por conta do voraz apetite do capitalismo em reproduzir lucros para poucos à custa de todo o resto, até mesmo da sobrevivência do planeta. “Ações baseadas no mercado não serão suficientes”, escrevem os acadêmicos. O capitalismo, em outras palavras, não pode resolver o sério problema da extinção. O relatório da ONU assinala que a transição “implicam uma mudança dos indicadores econômicos padrão”. Sem colocar um nome em isso tudo, sugere que o único antídoto humano contra a extinção é o socialismo. Os recursos para financiar essas transformações existem e estão nos paraísos fiscais dos ricos, nos subsídios dados às corporações de combustíveis fósseis, ao agronegócio que destrói o planeta. Se esse dinheiro fosse reunido, seria o suficiente para reconfigurar os sistemas de energia, transporte, moradia e de alimentação. Um futuro socialista é necessário.


O comportamento escandaloso das corporações da mineração sob o capitalismo, e o saque por elas realizado, é camuflado pelo discurso da “boa governança”. O que esse discurso afirma é que a responsabilidade pela pobreza não é das empresas estrangeiras, mas da elite corrupta da África. Uma afirmação que entra em aguda contradição com os fatos, pois o dinheiro roubado pelas corporações ultrapassa de longe o dinheiro roubado pelos governantes. Mas o silêncio não faz o estilo dos mineiros. Eles têm lutado contra o roubo de sua força de trabalho desde o passado colonial até os tempos neocoloniais atuais. O protesto deles tem sido feroz e a reação a ele, mortal. Foi essa reação que matou a militante hondurenha pelos direitos dos povos originários e pelo meio ambiente, Berta Cáceres, em 2016, e que tentou (mas falhou) assassinar Francia Márquez no dia 4 de maio deste ano, devido a seu trabalho de organização contra a indústria extrativista na Colômbia. Mineiros, assim como os trabalhadores sem-terra, estão familiarizados com tiros e gás lacrimogêneo, de uma ponta da África (Marikana, África do Sul) a outra (Jerada, Marrocos). Mas a violência do Estado e das corporações não os detém.