Notícias das lutas e conflitos na África, Ásia e América Latina nem sempre são fáceis de encontrar. Uma greve geral na Índia não é relatada na imprensa corporativa, nem o assassinato de um ativista de direitos humanos na América Central, nem as notícias de grande interesse humanitário das organizações multilaterais (como as agências das Nações Unidas). À medida que a mídia mundial fica cada vez mais homogeneizada pelos interesses da ideologia corporativa, mais e mais notícias sobre os povos do mundo desaparecem. Há tão pouca informação básica, por exemplo, sobre a fome no mundo e sobre as lutas para alimentar os famintos. Não estamos interessados ​​apenas nos conflitos e no sofrimento. Estamos igualmente interessados ​​nas lutas dos povos para enfrentar esses desafios amplos.

Nós, no Tricontinental, enviaremos uma carta semanal, uma nota curada com informações de uma parte do mundo, que oferecerá uma janela para algumas das lutas e conflitos do nosso tempo. A carta estará disponível por assinatura – e é gratuita.

Para saber mais sobre o carta semanal, ou para nos enviar histórias que você acha que devemos abordar, por favor escreva para [email protected]. Nós não prometemos usar todas e cada uma das suas sugestões, mas nós as recebemos bem. Se você tiver objeções a qualquer coisa que tenhamos, entre em contato conosco. Pode haver momentos em que poderemos publicar sua crítica como parte de nosso mandato para estimular o debate.

 


No Brasil, os corpos de trezentas pessoas inocentes esfriaram e foram submergidos em 30 milhões de metros cúbicos de lama de minério de ferro que foram despejadas por uma barragem de rejeitos em uma mina de propriedade da Vale – uma das maiores mineradoras do mundo. Enquanto isso, no Canadá – lar de quase metade das mineradoras do mundo – é fácil se esconder por trás do sorriso de Justin Trudeau, em vez de estabelecer um órgão independente para investigar os abusos contra os direitos humanos cometidos pelas mais de 1500 empresas canadenses que operam em 8 mil lugares em mais de cem países. Nos EUA, Trump e Bolton admite que a intervenção estadunidense na Líbia e Venezuela respondem aos interesses pelo petróleo. Como os sobreviventes do acidente mineiro no Chile, em 2010, as minas choram, e também os mineiros.


Em 15 de setembro de 1970 – quase três anos antes do golpe que resultou na morte do presidente socialista chileno Salvador Allende  – o conselheiro de Segurança Nacional, Henry Kissinger, orientou o presidente estadunidense Richard Nixon que fizesse “a economia gritar” no Chile. “Não estavam preocupados com os riscos envolvidos”, Kissinger assegurou. Golpes precisam ser legitimados para terem sucesso – por campanhas que desestabilizem a economia ou pelo uso da mídia corporativa e do judiciário na deslegitimação dos governos, entre outras táticas. O que ocorreu no Chile em 1973 é precisamente o que os Estados Unidos tentou fazer em diversos outros países do Sul Global. É o que estão atualmente tentando fazer na Venezuela. Mas nada disso é inevitável. É hora de dizer não. Não há meio termo.


A desigualdade é sexista. É também transfóbica e racista. Esta é a realidade demonstrada pelo recente relatório da Oxfam sobre a riqueza e a desigualdade, uma realidade bastante conhecida por aqueles que a vivencia. É a realidade relatada pelas mulheres trabalhadoras que se organizam por melhores moradias na Índia, pela comunista de Trinidad e Tobago, Claudia Jones, e pelo já falecido intelectual Antônio Gramsci, que nos lembrou que tudo está conectado nos sistemas de exploração e por isso também deve estar em nossos planos de construção de um mundo melhor: um mundo socialista e internacionalista. É uma situação a qual enfrentamos abruptamente esta semana, com os Estados Unidos fazendo o que pode para estrangular a agenda da Revolução Bolivariana para construir um mundo assim.


No final do ano passado, o assessor de segurança nacional dos EUA, John Bolton, cunhou uma nova expressão: troika da tirania. Bolton refere-se a Cuba, Nicarágua e Venezuela. Os líderes da extrema-direita no continente (Bolsonaro, Márquez e Trump) salivam com a perspectiva de mudança de governo em cada um desses países. Eles querem eviscerar a “maré rosa” da região. Enquanto isso, logo após a vitória da Liga Awami, do xeique Hasina, os trabalhadores do setor têxtil – o coração do PIB de Bangladesh – saíram às ruas para exigir aumento do salário mínimo, já que as remunerações atuais os levam à fome. Na Índia, líderes estudantis estão enfrentando ataques judiciais com a lei de perturbação da ordem, que data da era britânica. Todo o sistema parece ter como premissa a violência estruturada e cruel contra pessoas comuns que devem viver como uma população descartável que trabalha ou uma população descartável que não trabalha. Mas nós temos conosco, para superar essa crueldade, as palavras de Rosa Luxemburgo: “Fui, sou e serei”.


Nos dias 8 e 9 de janeiro, mais de 160 milhões de trabalhadores realizaram uma greve na Índia, envolvendo diversos setores, da indústria à saúde. Foi uma das maiores greves do mundo. Essa paralisação de dois dias ocorre no momento em que trabalhadores em todo mundo saúdam a chegada de 2019 com uma onda de mobilizações – do “mês da fúria” no Marrocos feito por sindicatos, aos protestos no Sudão devido ao aumento dos preços, passando pelas greves de professores em Los Angeles (EUA) e na Nigéria, por melhores salários. Já Bolsonaro, no Brasil, não hesitou em não dar o aumento esperado para o salário mínimo e iniciou seus ataques contra os povos indígenas. Resta aos corajosos seguir o exemplo de lutadores como a palestina Shadia Abu Ghazaleh e lutar por um futuro que beneficie o povo, e não a elite global e aos neofacistas de hoje. Serão lutas que farão a terra sentir-se orgulhosa.