Paulo Freire e as lutas populares na África do Sul

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Paulo Freire foi um educador radical brasileiro cujo trabalho estava vinculado às lutas pela libertação e pela dignidade humana. Ele constantemente fazia experimentações e refletia sobre como conectar a transformação social com o ensino e a aprendizagem entre os pobres e oprimidos. Para Freire, isso significava lutar por um mundo no qual todos são tratados de maneira igualitária e digna – um mundo no qual o poder econômico e o político estão radicalmente democratizados.

Este dossiê, resultado de entrevistas com militantes de uma série de lutas na África do Sul, mostra que as ideias de Freire tiveram uma importante influência no Movimento da Consciência Negra [Black Consciousness Movement – BCM], no movimento sindical e em algumas organizações associadas à Frente Democrática Unida [United Democratic Front – UDF]. Suas ideias seguem influentes nos dias de hoje entre sindicalistas e movimentos de massas.

 

Mural of Paulo Freire at the entrance to the Florestan Fernandes National School of the Landless Rural Workers’ Movement (MST) in Guararema, Brazil, 2018.

Mural de Paulo Freire na entrada da Escola Nacional Florestan Fernandes, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Guararema, Brasil, 2018.
Richard Pithouse

 

Do Brasil à África

Freire nasceu em Recife (PE), em 1921. Após concluir seus estudos universitários, tornou-se professor e começou a desenvolver um interesse por abordagens radicais na educação, incluindo projetos voltados à alfabetização de adultos. Freire enxergou o papel da comunidade e das organizações de trabalhadores e suas lutas como vitais na formação de uma consciência crítica necessária para superar a dominação e a dependência dos oprimidos.

Em seus primeiros trabalhos, ele escreveu que o objetivo fundamental da pedagogia radical era desenvolver a consciência crítica dos indivíduos. O método de engajamento dialógico que ele desenvolveu da década de 1950 em diante tornou-se uma alternativa emancipadora e progressista aos programas escolares dominantes patrocinados pelo governo estadunidense por meio de instituições como a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, sigla em inglês), uma organização notoriamente conhecida por apoiar golpes contra governos eleitos na América Latina e em outros lugares do mundo.

Com o Golpe Civil-Militar de 1964, realizado com apoio dos EUA, e a brutal ditadura de direita que se seguiu, Freire estava entre as diversas pessoas detidas pela ditadura. Após sete dias na prisão, foi liberado e forçado a deixar o país.

Durante os anos de exílio, continuou a realizar seu trabalho em outros países da América Latina, como o Chile, onde escreveu seu livro mais importante, Pedagogia do Oprimido, e desenvolveu programas de alfabetização de adultos. Ele também teve contatos significativos com as lutas por libertação na África. Visitou Zâmbia, Tanzânia, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, e Cabo Verde. Reuniu-se com o Movimento Popular de Libertação da Angola (MPLA), a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), e também desenvolveu programas de alfabetização de adultos na Guiné-Bissau, na Tanzânia e em Angola.

Freire lia bastante acerca da colonização e seus efeitos no povo, incluindo os escritos de revolucionários e intelectuais africanos como Frantz Fanon e Amílcar Cabral. Ele sentiu uma conexão especial com a África e escreveu que “Como nordestino, estava de certo modo culturalmente ligado à África, especialmente àqueles países que foram colonizados por Portugal, como foi o Brasil” (Freire; Macedo, 2013).

Freire era também profundamente crítico ao sistema capitalista, que explora e domina os corpos e mentes dos oprimidos, constituindo-se uma grande força geradora das condições materiais e ideológicas que moldam a dominação da consciência. Tal dominação – que, claro, está imbricada com o racismo e o sexismo – pode se infiltrar em nosso ser, nossas ações, e na forma como vemos o mundo. Freire argumentava que aprender a superar a dominação é um trabalho político difícil, mas essencial que requer aprendizagem constante.

A ênfase de Freire na importância do diálogo como base para a consciência crítica e seu destaque para o papel essencial da luta e da organização popular tornaram-se ferramentas importantes nas lutas de massas no Brasil nos anos 1970 e 1980. Nesse período, na América Latina em geral e no Brasil em especial, a educação popular se tornou sinônimo de movimentos populares que a utilizavam como principal estratégia educacional, unindo prática política e processo de aprendizagem.

Em 1980, Freire retornou ao Brasil, onde se tornou ativo no Partido dos Trabalhadores (PT). Quando o partido ganhou a eleição para a prefeitura da maior cidade do país, São Paulo, em 1988, ele foi nomeado secretário de educação da cidade e ocupou o cargo até 1991. Freire faleceu em 1997.

 

Pedagogia do Oprimido

Em 1968, enquanto estava no exílio no Chile, Freire escreveu Pedagogia do Oprimido. Durante esse ano, revoltas protagonizadas pela juventude ocorreram ao redor do mundo. Na França, onde esse processo foi mais intenso, muitos jovens começaram a entrar em contato com a produção intelectual da luta armada contra o colonialismo francês no Vietnã e na Argélia — incluindo o trabalho de Fanon sobre a revolução argelina, que influenciou Freire. Em 1987, ele lembrou que “um jovem que estava em Santiago em uma tarefa política me deu o livro Os condenados da terra. Eu estava escrevendo Pedagogia do Oprimido, e o livro estava quase terminado quando li Fanon. Tive que reescrever o livro” (Freire; Horton, 2003). Freire foi profundamente influenciado pelo humanismo radical de Fanon, suas reflexões sobre o papel dos intelectuais formados em universidades na luta popular, e seus alertas sobre como uma elite entre os oprimidos poderia se tornar os novos opressores.

Freire escreveu muitos livros nos anos subsequentes, mas foi Pedagogia do Oprimido que se tornou rapidamente um clássico revolucionário – e assim permanece. Esse livro teve um profundo impacto nos movimentos populares em todo o mundo e segue sendo a melhor introdução às ideias de Freire.

Em uma conversa realizada em Durban, em 1988, Neville Alexander, que era um importante intelectual radical em diversas áreas, incluindo educação, explicou que: “para Freire, a diferença decisiva entre os animais e os seres humanos consiste na habilidade destes de refletir diretamente sobre sua ação. Essa habilidade é, para ele, o atributo único da consciência humana e da existência autoconsciente e é o que torna possível para as pessoas mudarem sua condição”. Em outras palavras, para Freire, todas as pessoas são capazes de pensar, e o pensamento crítico, empreendido coletivamente, é a base da organização e da luta.

Freire argumenta que a opressão desumaniza a todos – oprimidos e opressores – e que as formas emancipatórias de política – as lutas dos oprimidos por liberdade e justiça – são, em última análise, uma demanda “para a afirmação de homens e mulheres como pessoas”. Ele escreve que: “aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos: libertar-se a si e aos opressores” (Freire, 2005).

Mas, para Freire, existe o perigo de que a pessoa oprimida que deseja ser livre possa passar a acreditar que, para tal, ela ou ele deva se tornar como o opressor: “O seu ideal é, realmente, ser homem, mas, para eles, ser homem, na contradição em que sempre estiveram e cuja superação não lhes está clara, é ser opressor”[1] (Freire, 2005). Freire acreditava que a educação política durante a luta é importante para ajudar a evitar que as elites entre os oprimidos se tornem novos opressores, alertando que quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.

Para Freire, o objetivo da liberdade é permitir que todos sejam plenamente humanos; a luta pela liberdade deve acabar com toda opressão. Deve ser para a libertação de todos, em todos os lugares, e não apenas para alguns. No entanto, ele diz, há muitas razões diferentes pelas quais os oprimidos nem sempre veem isso com clareza. Às vezes, eles não enxergam que são oprimidos porque foram ensinados a acreditar que a maneira como as coisas são é o “normal” ou é culpa deles. São ensinados a acreditar, por exemplo, que são pobres porque não têm educação suficiente ou que outros são ricos porque trabalharam mais. Às vezes, são ensinados a culpar outra coisa (como “a economia”) ou outras pessoas (como “estrangeiros”) por sua pobreza.

A verdadeira libertação deve começar por enxergar de forma nítida como as coisas realmente são. É por isso que o questionamento, a discussão e o aprendizado radicais e coletivos são tão importantes. Ele argumentou que, pensando cuidadosa e criticamente sobre como as coisas realmente são (nossas vidas e experiências reais), podemos vir a ver a opressão com mais precisão para que possamos lutar de forma mais eficaz e colocar fim a ela.

O trabalho político de fomentar o pensamento crítico sobre nossa situação não significa encorajar as pessoas a apenas criticar tudo; significa sempre ir além da aparência, indagando constantemente – em especial perguntando “por quê?” – para entender as causas básicas de por que as coisas são como são, sobretudo aquelas sobre as quais temos fortes sentimentos. Fazer perguntas permite que as pessoas utilizem as próprias experiências de vida e pensamentos para encontrar as próprias respostas para a questão de por que enfrentam situações de opressão ou injustiça. Isso é muito diferente da educação tradicional que tenta preencher as cabeças (aparentemente vazias!) dos alunos com o conhecimento que o professor poderoso pensa que eles precisam. Freire escreveu que “Na visão ‘bancária’ da educação, o ‘saber’ é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão – a absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual esta se encontra sempre no outro” (Freire, 2005). Ao modelo de educação que pressupõe que somente o professor tem todo o conhecimento, e os alunos não, ele denominou modelo “bancário”, e comparou-o a um professor fazendo depósitos em uma conta vazia. Freire escreveu que:

Dizer-se comprometido com a libertação e não ser capaz de comungar com o povo, a quem continua considerando absolutamente ignorante, é um doloroso equívoco. Aproximar-se dele, mas sentir, a cada passo, a cada dúvida, a cada expressão sua, uma espécie de susto, e pretender impor o seu status, é manter-se nostálgico de sua origem (Freire, 2005).

Isso é muito diferente de muitos programas de educação política organizados por ONGs ou pequenos grupos políticos sectários que assumem que os oprimidos são ignorantes e incapazes de pensar, e que, portanto, cabe a esses agentes externos trazer conhecimento ao povo. Freire argumentou que “Do mesmo modo, uma liderança revolucionária, que não seja dialógica com as massas, ou mantém a ‘sombra’ do dominador ‘dentro’ de si e não é revolucionária, ou está redondamente equivocada e, presa de uma sectarização indiscutivelmente mórbida, também não é revolucionária” (Freire, 2005).

Freire também percebeu que as pessoas não podem mudar situações de opressão e injustiça por conta própria. Isso significa que a luta pela libertação deve ser coletiva. Ele sugeriu que o que chamou de “animador” poderia ajudar. Um “animador” pode vir de fora da situação de vida dos pobres e oprimidos, mas desempenha um papel que ajuda a encorajar o pensamento, a vida e a força das pessoas que se encontram nessa situação. Um animador não trabalha para afirmar seu próprio poder sobre os oprimidos. Ele trabalha para criar uma comunidade questionadora na qual todos possam contribuir para o desenvolvimento do conhecimento, e na qual o poder democrático dos oprimidos possa ser construído. Fazer isso com eficácia requer humildade e amor; é fundamental que um animador entre na vida e no mundo dos pobres e oprimidos e, ao fazê-lo, entre em um verdadeiro diálogo com eles, como iguais.

Freire escreve que:

O radical, comprometido com a libertação dos homens, não se deixa prender em ‘círculos de segurança’, nos quais aprisione também a realidade. Tão mais radical quanto mais se inscreve nesta realidade para, conhecendo-a melhor, melhor poder transformá-la. Não teme enfrentar, não teme ouvir, não teme o desvelamento do mundo. Não teme o encontro com o povo. Não teme o diálogo com ele, de que resulta o crescente saber de ambos. Não se sente dono do tempo, nem dono dos homens, nem libertador dos oprimidos. Com eles se compromete, dentro do tempo, para com eles lutar (Freire, 2005).

Em um diálogo genuíno, tanto o animador quanto os educandos, entre os oprimidos, contribuem com algo para esse processo. Por meio desse diálogo e de uma reflexão cuidadosa, coletiva e crítica sobre a experiência vivida, tanto os educandos oprimidos quanto o animador passam a ser “conscientizados”; em outras palavras, eles realmente entendem a natureza da opressão. Mas, para Freire, não é bom apenas entender o mundo; “é necessário que a debilidade dos sem poder se transforme em força capaz de anunciar justiça”.

Esta ação contra a opressão deve estar sempre unida a um pensamento cuidadoso (reflexão) sobre a ação e o que aconteceu como resultado da ação. Ação e reflexão são parte de um ciclo contínuo de transformação que Freire, seguindo Karl Marx, chamou de “práxis”.

 

Book covers of Pedagogy of the Oppressed in different languages.

Capas de exemplares da Pedagogia do Oprimido em diferentes idiomas

 

A importância do pensamento de Freire na África do Sul

 

Paulo Freire foi o teórico-chave. Mas precisávamos trazê-lo do Brasil para o contexto sul-africano. É claro que não sabíamos nada sobre o Brasil, exceto o que estávamos lendo. Não conheço nenhum texto semelhante que poderíamos ter usado na África do Sul naquele momento como uma forma de compreender e engajar o contexto sul-africano.

— Barney Pityana, importante intelectual do Movimento da Consciência Negra

 

Embora Freire tenha visitado muitos países da África, o Estado do apartheid não permitiu que ele fosse à África do Sul. No entanto, ele aborda o país em seus livros e descreve como ativistas antiapartheid sul-africanos foram vê-lo para falar de seu trabalho e seu significado no contexto sul-africano. Muitas das organizações e movimentos envolvidos na luta antiapartheid usaram o pensamento e os métodos de Freire.

 

O Movimento da Consciência Negra

Embora o Estado do apartheid tenha banido a Pedagogia do Oprimido, cópias piratas circularam e, no início dos anos 1970, o trabalho de Freire já era usado na África do Sul. Leslie Hadfield, uma acadêmica que escreveu sobre a utilização da obra de Freire pelo Movimento da Consciência Negra, argumenta que Pedagogia do Oprimido chegou pela primeira vez à África do Sul no início dos anos 1970 por meio do Movimento Cristão Universitário [University Christian Movement – UCM], que começou a realizar projetos de alfabetização inspirados em Freire. O UCM trabalhou em estreita colaboração com a Organização de Estudantes da África do Sul [South African Students’ Organisation – Saso], fundada em 1968 por Steve Biko, junto a outras figuras como Barney Pityana e Aubrey Mokoape. A Saso foi a primeira de uma série de organizações que, juntas, formaram o Movimento da Consciência Negra.

Anne Hope, uma cristã radical de Joanesburgo e membra da Graal (Grail), uma organização de mulheres cristãs comprometida com “um mundo transformado em amor e justiça”, conheceu Freire na Universidade de Harvard, em Boston, em 1969, e depois novamente na Tanzânia. Após seu retorno à África do Sul em 1971, Biko pediu que ela trabalhasse com as lideranças da Saso por seis meses com os métodos participativos de Freire. Biko e quatorze outros ativistas foram formados em métodos freirianos em oficinas mensais. Bennie Khoapa, uma figura importante no BCM, lembrou que Paulo Freire “deixou uma impressão filosófica duradoura em Steve Biko”.

Entre essas oficinas, os militantes saíam para fazer pesquisas em comunidades como parte de um processo de conscientização. Barney Pityana lembra que:

Anne Hope coordenava o que essencialmente era uma formação em alfabetização, mas uma formação em alfabetização diferente, pois era o método Paulo Freire que realmente estava levando a experiência humana para o caminho da compreensão de conceitos. Era extraído da experiência e da compreensão do cotidiano: quais os impactos que isso causa na mente, o aprendizado e a compreensão que tiveram.

Para alguns de nós, suspeito que foi a primeira vez que nos deparamos com Paulo Freire; para mim certamente foi, mas Steve, Steve Biko era uma pessoa que lia coisas muito diversas, muitas das coisas que ele sabia, nós não sabíamos. E assim, em suas leituras, ele se deparou com a Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, e passou a aplicá-la em sua explicação do sistema opressor na África do Sul.

Ecoando o argumento de Freire de que apenas os oprimidos podem libertar a todos, o BCM enfatizou a importância dos negros liderarem a luta contra o apartheid. Freire também enfatizou que, “sem um senso de identidade, não pode haver luta real”. Isso também repercutiu no Movimento, que afirmou uma identidade negra orgulhosa e forte contra a supremacia branca.

O movimento inspirou-se diretamente em Freire conforme desenvolveu um processo constante de reflexão crítica como um projeto permanente de conscientização. Aubrey Mokoape, que teve experiência no Congresso Pan-Africanista e se tornou um mentor mais velho entre os estudantes que fundaram a Saso, explica que a ligação entre a Consciência Negra e a “conscientização” é patente:

A única forma de derrubar esse governo é fazer com que nosso povo entenda o que queremos fazer e se apropriem do processo, em outras palavras, conscientizem-se de sua posição na sociedade, ou seja […] unam os pontos, entendam que se você não tem dinheiro pra pagar […] as mensalidades da faculdade de medicina do seu filho, se você não tem moradia adequada, se tem transporte ruim, como essas coisas formam um todo único; que todas essas coisas estão realmente conectadas. Elas estão embutidas no sistema, sua posição na sociedade não é isolada, mas sistêmica.

 

Steve Biko

Steve Biko (em pé) e Rubin Phillip (à direita), em 1971, na conferência da Organização de Estudantes da África do Sul (South African Students’ Organisation – Saso) em Durban. 
Steve Biko Foundation

Steve Biko
Fraser MacLean / Historical Papers Research Archive University of the Witwatersrand

 

A Igreja

Em 1972, Biko e Bokwe Mafuna (que tinham feito parte da formação nos métodos freireanos) foram empregados como oficiais de campo por Bennie Khoapa, chefe do Conselho de Igrejas da África do Sul [South African Council of Churches – SACC] e do instituto cristão Projetos da Comunidade Negra [Black Community Projects – BCP], e também fizeram formação em métodos freirianos. O trabalho do BCP foi fortemente influenciado por Freire. Tanto o BCM quanto as igrejas cristãs na África do Sul basearam-se na teologia da libertação, uma escola de pensamento radical pela qual Freire foi influenciado e para a qual contribuiu. Rubin Phillip, eleito vice-presidente da Saso em 1972, tornou-se um arcebispo anglicano; ele explica que:

Paulo Freire é considerado um dos fundadores da teologia da libertação. Ele era um cristão que viveu sua fé de uma forma libertadora. Paulo colocou o pobre e o oprimido no centro de seu método, o que é importante no conceito de opção preferencial pelos pobres, marca registrada da teologia da libertação.

Na África do Sul, as ideias tiradas da teologia da libertação foram – junto da teologia da libertação negra desenvolvida por James H. Cone nos Estados Unidos – uma influência poderosa em várias correntes de luta. O bispo Rubin lembra que:

A única coisa que tirei da nossa conversa foi a necessidade de sermos pensadores críticos. […] Os teólogos da libertação aludem que a teologia, como a educação, deve ser para a libertação, não para a domesticação. A religião nos tornou subservientes, nos fez ter preguiça de usar nossa capacidade crítica e conectar o conhecimento à nossa realidade cotidiana. Então, educação para ele é […] um modo de vida crítico e se refere a conectar o conhecimento ao modo como vivemos.

 

O movimento operário

O Movimento da Consciência Negra incluía organizações de trabalhadores como o Projeto de Trabalhadores Negros [Black Workers’ Project], uma iniciativa conjunta entre o BCM e a Saso. O movimento de trabalhadores também foi influenciado pelas ideias freirianas por meio de projetos de educação de trabalhadores iniciados na década de 1970. Um deles foi o Programa de Treinamento Urbano [Urban Training Programme – UTP], que usou a metodologia ver-julgar-agir da Juventude Operária Católica [Young Christian Workers – YCW], que influenciou o pensamento e a metodologia de Freire. O UTP usou esse método para estimular os trabalhadores a refletir sobre suas experiências cotidianas, pensar sobre o que poderiam fazer sobre sua situação e, então, agir para mudar o mundo. Outros projetos pedagógicos de trabalhadores foram iniciados por estudantes de esquerda dentro e ao redor da União Nacional de Estudantes Sul-Africanos [National Union of South African Students – Nusas]. A Saso havia se separado da Nusas em 1968, mas, embora em grande parte formada por pessoas brancas, a Nusas era uma organização conscientemente antiapartheid que também foi influenciada por Freire, principalmente por meio de membros que também faziam parte do Movimento Cristão Universitário [University Christian Movement – UCM].

Durante a década de 1970, as Comissões de Salários foram criadas na Universidade de Natal, na Universidade de Witwatersrand e na Universidade da Cidade do Cabo. Usando os recursos dessas instituições e de alguns sindicatos progressistas, as Comissões ajudaram a estabelecer estruturas que levaram à formação do Escritório de aconselhamento ao trabalhador da Província Ocidental [Western Province Workers’ Advice Bureau – WPWAB] na Cidade do Cabo, o Fundo Geral de Benefícios para Trabalhadores Fabris [General Factory Workers’ Benefit Fund – GFWBF] em Durban, e a Sociedade de Auxílio Industrial [Industrial Aid Society – IAS] em Joanesburgo. Vários estudantes de esquerda apoiaram essas iniciativas, assim como alguns sindicalistas mais velhos, como Harriet Bolton, em Durban, onde Rick Turner, um acadêmico radical cujo estilo de ensino foi influenciado por Freire, tornou-se uma figura influente entre vários estudantes. Turner estava comprometido com um futuro enraizado na democracia participativa e muitos de seus estudantes se tornaram militantes comprometidos.

David Hemson, um frequentador desse meio, explica que:

Duas mentes particulares estavam trabalhando: uma [Turner], em uma casa de madeira e ferro em Bellair; a outra [Biko], à sombra da fedorenta e barulhenta refinaria de petróleo de Wentworth, na casa de Alan Taylor. Ambos se tornariam amigos íntimos e ambos morreriam nas mãos do aparato de segurança do apartheid após explosões enérgicas de escrita e engajamento político. Ambos foram influenciados pela Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire, e essas ideias e conceitos foram fundidas e entrelaçadas em seus escritos que buscavam a liberdade.

Omar Badsha foi um dos alunos que conviveu com Turner e participou da criação do Instituto de Educação Industrial [Institute for Industrial Education – IIE]. Ele lembra que:

Rick Turner se interessava muito por educação e, como qualquer intelectual, começamos a ler, e um dos textos que lemos foi o livro de Paulo Freire, que tinha acabado de sair. Esse livro ressoou em nós no sentido de que lá havia algumas ideias valiosas sobre educar e uma forma afirmativa de educação – levando em consideração o público e como se relacionar com ele.

Em janeiro de 1973, os trabalhadores em Durban entraram em greve, um evento que agora é visto como um grande ponto de inflexão na organização dos trabalhadores e na resistência ao apartheid. Hemson lembra que:

De madrugada, eles confluíram, vindos dos alojamentos de Coronation Bricks, das amplas fábricas têxteis de Pinetown, dos complexos municipais, grandes fábricas, moinhos e da pequena fábrica de processamento de chá Five Roses. Os oprimidos e explorados se levantaram e derrubaram os patrões e seu regime. Somente no coletivo, nos piquetes levantados, nas reuniões massivas de grevistas sem liderança, nas reuniões dos trabalhadores piqueteiros, a expressão individual teve confiança. A sólida ordem do apartheid rachou e novas liberdades nasceram. Novos conceitos assumiram forma humana: o tecelão tornou-se delegado sindical; uma massa organizada ultrapassou os desorganizados; o mestre têxtil, um sindicalista dedicado; o homem mais velho e tímido, um veterano renascido do Congresso; um varredor, um trabalhador geral definido.

 

 

Clover's main factory at Congella (Durban) was crippled when its 500 African employees went on strike for higher wages. 7 February 1973, Clover Dairy, Durban. Credit: Mike Duff / Source Sunday Times

A principal fábrica da Clover, em Congella (Durban), foi paralisada quando 500 empregados entraram em greve por melhores salários. 7 de fevereiro de 1973, Clover Dairy, Durban.
Mike Duff / Source Sunday Times

 

Depois do “momento Durban”

O período em Durban antes e durante as greves de 1973 veio a ser conhecido como o “momento Durban”. Com Biko e Turner sendo suas duas figuras carismáticas, esta foi uma época de importante criatividade política que lançou as bases de boa parte da luta que viria.

Mas em março de 1973, o Estado baniu Biko e Turner, junto a vários líderes do BCM e do Nusas, incluindo Rubin Phillip. Apesar disso, conforme os sindicatos se formavam após as greves, vários intelectuais formados em universidades, muitas vezes influenciados por Freire, começaram a trabalhar dentro e com os sindicatos, que avançaram rapidamente. Em 1976, a revolta de Soweto, influenciada diretamente pela Consciência Negra, abriu um novo capítulo na luta e mudou o centro da resistência para Joanesburgo.

Biko foi assassinado sob custódia policial, em 1977, e logo depois as organizações da Consciência Negra foram banidas. No ano seguinte, Turner foi assassinado.

Em 1979, vários sindicatos se reuniram na Federação dos Sindicatos da África do Sul [Federation of South African Trade Unions – Fosatu], que estava – no espírito do momento Durban – fortemente comprometida com o controle democrático dos trabalhadores nos sindicatos e no chão de fábrica, bem como com o empoderamento político dos delegados sindicais.

Em 1983, a Frente Democrática Unida [United Democratic Front – UDF] foi formada na Cidade do Cabo. Ela uniu organizações comunitárias de base em todo o país com um compromisso com a práxis democrática de baixo para cima, no presente, e uma visão de um futuro radicalmente democrático pós apartheid. Em meados da década de 1980, milhões de pessoas foram mobilizadas por meio da UDF e do movimento sindical, que se tornou federado por meio do Congresso de Sindicatos Sul-Africanos [Congress of South African Trade Unions – Cosatu], alinhado ao Congresso Nacional Africano (CNA), em 1985.

Ao longo desse período, as ideias freirianas absorvidas e desenvolvidas no momento Durban foram frequentemente centrais para se pensar sobre a educação e a práxis política. Anne Hope e Sally Timmel escreveram Treinamento para a transformação [Training for Transformation], um livro com três volumes cujo objetivo era aplicar os métodos de Freire para desenvolver a práxis radical no contexto das lutas emancipatórias na África austral. O primeiro volume foi publicado no Zimbábue em 1984. Foi rapidamente proibido na África do Sul, mas foi amplamente divulgado clandestinamente. Treinamento para a transformação foi usado no trabalho de educação política tanto no movimento sindical quanto nas lutas comunitárias que estavam ligadas entre si através da UDF.

Salim Vally, um militante e acadêmico, lembra que “grupos de alfabetização dos anos 1980, alguns grupos de pré-escola, educação de trabalhadores e movimentos de educação popular foram profundamente influenciados por Freire”. O Comitê Sul-Africano para Educação Superior [South African Committee for Higher Education – Sached] também passou a ser fortemente influenciado por Freire. O Comitê, formado pela primeira vez em 1959 em oposição à imposição da segregação nas universidades pelo Estado do apartheid, forneceu apoio educacional para sindicatos e movimentos comunitários na década de 1980. Vally observa que “Neville Alexander sempre discutiu Freire no Sached – ele era o diretor na Cidade do Cabo – e em outros círculos de educação em que estava envolvido. John Samuels, o diretor nacional de Sached, conheceu Freire em Genebra”.

A partir de 1986, a ideia de “poder popular” tornou-se muito importante nas lutas populares, mas as práticas e entendimentos sobre o que isso significava variavam amplamente. Alguns viam o povo como um aríete que abria caminho para o CNA retornar do exílio e da clandestinidade e assumir o poder sobre a sociedade. Outros pensavam que a construção de práticas e estruturas democráticas em sindicatos e organizações comunitárias marcou o início do trabalho necessário para construir um futuro pós-apartheid no qual a democracia participativa estaria profundamente enraizada na vida cotidiana – em locais de trabalho, comunidades, escolas, universidades, etc. Era isso que se queria dizer com a palavra de ordem sindical “construindo hoje o amanhã”.

Embora houvesse fortes correntes freirianas neste período, elas foram significativamente enfraquecidas pela militarização da política no final dos anos 1980, e mais ainda quando a proibição do CNA foi levantada em 1990. O retorno do Congresso do exílio e da clandestinidade levou a uma desmobilização deliberada das lutas comunitárias e à subordinação direta do movimento sindical à autoridade do CNA. A situação não era diferente da descrita por Frantz Fanon em Os condenados da terra:

O partido hoje tem por missão fazer chegar ao povo as instruções emanadas da cúpula. Não há mais o vai e vem fecundo da base à cúpula e da cúpula à base que funda e garante a democracia em um partido. Ao contrário, o partido se converte em um anteparo entre as massas e a direção. (Fanon, 1968, p. 140)

 

Rick Turner, undated. Credit: Helen Joseph Collection of the Historical Papers Research Archive, University of the Witwatersrand

Rick Turner, data não determinada.
Coleção Helen Joseph do Arquivo de Documentos Históricos da University of the Witwatersrand
Da esquerda para a direita: Henry Fazzie, Murphy Morobe e Albertina Sisulu na Khotso House, sede do Conselho de Igrejas da África do Sul (South African Council of Churches – SACC) e a Frente Democrática Unida (United Democratic Front – UDF). Johannesburg, África do Sul, data não determinada. 
Joe Sefale / Gallo Images
Reunião da Federação dos Sindicatos da África do Sul (Federation of South African Trade Unions – Fosatu), data não determinada. 
Wits Historical Papers

 

Paulo Freire hoje

As ideias freirianas continuaram a prosperar após o apartheid em algumas das fissuras da nova ordem. Por exemplo, nos primeiros anos da dispensação democrática, a Faculdade dos Trabalhadores [Workers’ College], em Durban, era um projeto de educação sindical que incluía alguns professores comprometidos com os métodos freirianos. Mabogo More, um filósofo com formação no BCM, foi um desses professores. Ele lembra que conheceu Freire como estudante da University of the North [também conhecida como Turfloop] na década de 1970 “através do conceito de ‘conscientização’ da Saso usado durante escolas de formação de inverno organizadas pela instituição. Mais tarde, S’bu Ndebele, um bibliotecário da Turfloop na época, contrabandeou uma cópia de Pedagogia do Oprimido que, junto com Os condenados da terra, de Frantz Fanon, líamos sorrateiramente entre nós, estudantes conscientizados”.

Em 1994, More pôde assistir a uma palestra de Freire na Universidade de Harvard, nos EUA. Ele conta que “a palestra de Freire foi fascinante e ajudou a modelar minha prática de ensino de acordo com os preceitos articulados na Pedagogia do Oprimido”.

Hoje, várias organizações continuam comprometidas com os métodos freirianos, como o Umtapo Center, em Durban. Esta foi fundada em Durban em 1986 como uma resposta ao aumento da violência política dentro das comunidades negras. Tem suas raízes no BCM e seu trabalho é explicitamente baseado na metodologia de Freire.

Outra organização que usa as ideias de Freire é o Programa de Terras da Igreja [Church Land Program – CLP], em Pietermaritzburg, que tem suas raízes na tradição da teologia da libertação e está intimamente ligada ao bispo Rubin, ao movimento Abahlali baseMjondolo e a uma série de outras organizações e lutas populares. A CLP foi estabelecida em 1996 em resposta ao processo de reforma agrária que estava ocorrendo na África do Sul e se tornou uma organização independente em 1997. No início dos anos 2000, o CLP percebeu que a luta contra o apartheid não havia levado ao fim da opressão, que o programa de reforma agrária estatal não estava tomando uma direção emancipatória e que seu próprio trabalho não estava ajudando a acabar com a opressão. Portanto, o CLP decidiu incorporar a ideia de animação de Freire e solidarizar-se com as novas lutas.

Zodwa Nsibande, um animator do CLP, afirmou que:

Em nossos compromissos, permitimos que as pessoas pensem, porque não queremos assumir seu arbítrio. Fazemos perguntas exploratórias para fazer as pessoas pensarem sobre suas experiências vividas. Abraçamos o pensamento de Paulo Freire quando ele disse que ‘a educação problematizadora afirma o homem e a mulher como seres em processo de tornar-se’. Quando nos envolvemos com comunidades usando metodologias de proposição de problemas, procuramos dar a elas seu poder. Sibabuyisele isithunzi sabo, ngoba sikholwa ukuthi ngenkathi umcindezeli ecindezela ususa isthunzi somcindezelwa. Thina sibuyisela isithunzi somcindezelwa esisuswa yisihluku sokucindezelwa [Restauramos a dignidade deles, pois acreditamos que quando o opressor oprime, ele tira a dignidade do oprimido. Nós restauramos a dignidade dos oprimidos que é roubada pela crueldade da opressão].

Nos últimos anos, as conexões com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) revigoraram a força das ideias de Freire na África do Sul. Formado em 1984, o MST tem mobilizado milhões de pessoas e organizado milhares de ocupações de terras improdutivas. A organização construiu relações estreitas com o Sindicato Nacional dos Metalúrgicos da África do Sul [National Union of Metalworkers in South Africa – Numsa], o maior sindicato da África do Sul, e com o Abahlali baseMjondolo, o maior movimento popular do país. Isso fez com que vários militantes dessas duas organizações pudessem participar dos programas da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), a escola de formação política do MST.

Há conexões diretas entre as experiências dos ativistas na ENFF e o estabelecimento de escolas políticas na África do Sul, como a Escola Política Frantz Fanon, construída e administrada pelo Abahlali baseMjondolo na ocupação de terras eKhenana em Durban.

Vuyolwethu Toli, que é funcionário do escritório de educação da regional JC Bez do Numsa, disse que:

Os sistemas de ensino na África do Sul e em todo o mundo usam o método bancário de educação, em que não há processos de aprendizagem recíprocos ou mútuos. O professor, ou quem quer que esteja facilitando, posiciona-se como o disseminador de conhecimento dominante que se vê como detentor do monopólio da sabedoria. Como camaradas responsáveis pela educação popular no sindicato, não atuamos assim. Garantimos que haja produção de conhecimento coletivo e que todas as sessões sejam pautadas pelas experiências vividas pelos trabalhadores. Nosso ponto de partida é que o conhecimento do trabalhador informa o conteúdo, e não o contrário. Não acreditamos no método bancário de educação.

As ideias de Freire, nascidas no Brasil, influenciaram lutas em todo o mundo. Quase cinquenta anos depois de começarem a influenciar intelectuais e movimentos na África do Sul, continuam relevantes e poderosos. O trabalho de conscientização é um compromisso permanente, um modo de vida. Como Aubrey Mokoape disse, “a consciência não tem fim. E a consciência não tem começo real”.

 

Escola Política Frantz Fanon na ocupação de terra eKhenana do Abahlali baseMjondolo, Cato Manor, Durban, África do Sul, 14 de outubro 2020.
Richard Pithouse

 

Agradecimentos

Este dossiê é fruto da pesquisa e foi escrito por Zamalotshwa Sefatsa.

Gostaríamos de agradecer às seguintes pessoas que aceitaram conceder entrevistas para este dossiê:

Omar Badsha, Judy Favish, David Hemson, Aubrey Mokoape, Mabogo More, Zodwa Nsibande, David Ntseng, John Pampallis, Bishop Rubin Phillip, Barney Pityana, Patricia (Pat) Horn, Vuyolwethu Toli, Salim Vally, e S’bu Zikode.

Também gostaríamos de agradecer às seguintes organizações por contribuírem com informações:

Abahlali baseMjondolo, Church Land Programme, Levante Popular da Juventude, The National Union of Metalworkers of South Africa, Escola Nacional Paulo Freire, e The Umtapo Centre.

Também agradecemos Anne Harley, cujo trabalho pioneiro sobre as ideias de Freire na África do Sul abriu portas para outros trabalhos feitos aqui, e que deu um apoio generoso para a produção deste texto.

 

Referências e leituras indicadas:

Biko, Steve. Eu escrevo o que eu quero. São Paulo: Ática, 1990.

Friedman, Steven. Building Tomorrow Today: African Workers in Trade Unions, 1970-1984. Johannesburg: Ravan Press, 1987

Fanon, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005, 42.ª edição.

Freire, Paulo; Macedo, Donaldo. Alfabetização: Leitura do mundo, leitura da palavra. Tradução de: OLIVEIRA, Lólio Lourenço de. 6. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

Paulo Freire; Myles Horton. O caminho se faz caminhando. São Paulo: Vozes, 2003.

Hadfield, Leslie. Liberation and Development: Black Consciousness Community Programs in South Africa. East Lansing: Michigan State University Press, 1996

Macqueen, Ian. Black Consciousness and Progressive Movements under Apartheid. Pietermaritzburg: University of KwaZulu-Natal Press, 2008

Magaziner, Dan. The Law and the Prophets: Black Consciousness in South Africa, 1968-1977. Johannesburg: Jacana, 2008

More, Mabogo. Philosophy, Identity and Liberation. Pretoria: HSRC Press, 2017.

Pityana, Barney; Ramphele, Mamphele; Mpumlwana, Malusi and Wilson, Lindy (Eds.) Bounds of Possibility: The Legacy of Steve Biko & Black Consciousness. David Philip: Cape Town, 2006.

Turner, Rick. The Eye of the Needle: Towards Participatory Democracy in South Africa. Johannesburg: Ravan Press, 1980.

 

The flags of the MST and Abahlali baseMjondolo photographed at the celebration of the movement's fifteenth anniversary. eKhenanan occupation, Durban, South Africa, 4 October 2020. Credit: Landh Tshazi / Abahlali baseMjondolo

Bandeira do MST e Abahlali baseMjondolo fotografada na celebração de 15 anos do movimento na ocupação eKhenanan, Durban, África do Sul, 4 de outubro de 2020. 
Landh Tshazi/Abahlali baseMjondolo

 


[1] Nos escritos de Freire, verifica-se o uso da palavra “homens” como sinônimo de “humano”, o que ainda era comum no final dos anos 1960. Devemos empreender o exercício intelectual de entrar em diálogo com suas formas de expressão de gênero com o objetivo de refletir criticamente e desenvolver alternativas emancipatórias.