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Prezados amigos e amigas,

Lula, o ex-presidente do Brasil, tem viajado por todo o país lutando para ser reeleito em outubro deste ano. A “Caravana pelo Brasil” faz parte da campanha eleitoral do Partido dos Trabalhadores (PT). Lula mantem a liderança nas pesquisas eleitorais. A oligarquia tentou impedir seu direito de concorrer à eleição através da ação judicial. Mas o bloco dominante não conseguiu. Lula permanece na luta. Nesta semana, quando a caravana de Lula passava pelo estado do Paraná, foram disparados tiros contra seus ônibus. Esta não é a primeira vez que os seguidores de Lula foram atacados. Se a oligarquia não consegue impedir Lula pelos tribunais, eles tentam impedi-lo por intimidação. Mas o experiente sindicalista não se abala. Na verdade, ele está motivado para lutar ainda mais. Na Alternet, tenho um relatório sobre a situação atual no Brasil, incluindo uma pequena nota sobre a tentativa de intimidar Lula a se calar. Você pode ler aqui.

O ataque ao Lula faz parte de um problema muito maior. A Democracia sofre agora sérias ameaças, mas não necessariamente de ditaduras ou golpes de estado mas por outras formas de ação. O professor Nancy Maclean da Univeridade de Duke em seu formidável livro Democracy in Chains lista como as oligarquias americanas usam seu dinheiro e sua engenhosidade para reduzir ações democráticas através das leis minando os sindicatos e impedindo o povo do direito de votar. Ao mesmo tempo, essa oligarquia tem conduzido uma agenda para privatizar grande parte dos bens públicos (da educação à saúde), fazendo os indivíduos responsáveis por essas necessidades através de dívidas e desespero. Torna-se cada vez mais evidente que a contradição entre democracia e capitalismo não pode ser sustentada.

Em agosto de 2016, Martin Wolf escreveu no Financial Times: “A democracia é igualitária. O capitalismo é desigual, pelo menos em termos de resultados ”. Wolf, principal comentarista econômico do Financial Times, escreveu que “se a legitimidade de nosso sistema político democrático deve ser mantida, a política econômica deve ser orientada para promover os interesses de todos, não apenas de alguns “. Esta é precisamente a direção oposta das tendências econômicas. A política beneficia os poucos e não a todos. Isso é o que abre a ferida entre democracia e capitalismo.

Lula representa o coração do povo brasileiro pobre. É por conta das políticas do PT que a fome começou a diminuir no Brasil. Agora está de volta. Um povo faminto quer que as políticas do Lula voltem. É isso que a democracia exige. Mas a oligarquia não o quer de volta. Eles querem desfrutar de seus ganhos. Preferem acorrentar a democracia do que entregar suas fortunas. Martin Wolf quer as duas coisas. Ele não conseguirá manter ao mesmo tempo o bolo e comê-lo. Uma escolha está diante de nós.

A política dos poderosos é desconcertante.  Trump decidiu pressionar por novas tarifas do aço e alumínio e, muito provável, sobre os produtos chineses. Produtos chineses? Existem essas coisas? Não são a maioria dos produtos chineses que são importados pelos Estados Unidos e fabricados ao longo de uma cadeia global de commodities, inclusive dentro dos Estados Unidos? Dessa forma, a política tarifária do Trump terá impacto sobre as indústrias instaladas nos Estados Unidos. Também prejudicará as empresas de varejo monopolistas dos EUA, como a Wal-Mart, que tenta barrar essas tarifas. A política mundial está uma bagunça. Os poderosos não têm uma maneira fácil de responder ao sofrimento geral de milhões. A desigualdade de renda e o ressentimento social são as condições do nosso tempo. As tarifas dos Estados Unidos não resolverão os problemas básicos criados pela globalização. Na última edição da Frontline, fiz uma nota breve sobre as contradições da política de Trump. Você pode ler aqui.

O esboço geral do relatório de Trump e suas tarifas foram extraídos do primeiro Documento de Trabalho do Tricontinental, “As ruínas do presente”. Espero que você possa baixar e ler nosso material. Você pode ver aqui (Nós somos gratos a Monthly Review por republicar o Documento de Trabalho na MR website).

A imagem acima é do artista chinês Liu Bolin, que desenvolveu uma técnica genial para representar o desaparecimento das pessoas. A peça acima, do ano de 2006, é chamada de “Trabalhadores Demitidos”, que apresenta seis operários da Zona de Arte 798, Vila Suoija, Pequim. Eles são pintados com as cores do pano de fundo. Estão ali, uma sombra dos edifícios. Esta instalação capta a realidade social de centenas de milhões de pessoas – à vista de todos, mas apagados.

Existe uma música antiga do Bob Marley que fala da “situação real”, como “nação guerreiam contra nação”. A banalidade é a atmosfera dessa música do Marley. “Ninguém pode pará-los agora”.

Parece com isso. As guerras na Síria e no Iêmen continuam. Os traficantes de armas continuam vendendo suas armas e conquistando enormes lucros. O mundo tem sido tomado por um ar de brutalidade.

Mais uma evidência disso é visível quando Trump monta seu gabinete de guerra, coordenado por John Bolton, que vê a guerra como a solução para todos os problemas. Bolton será capaz de planejar a guerra contra o Irã que pensa há décadas? Os iranianos não pensam. Eles entendem a guerra. A pintura acima é do pintor iraniano Khosrow Hassanzadeh. Ele lutou na brutal Guerra Irã-Iraque (1980-88). Hassanzadeh era um adolescente quando foi enviado ao campo de batalha. Sua arte capta o terrível conflito. Bolton nunca esteve em um campo de batalha. Sua guerra significa o bombardeio aéreo do Irã. Os iranianos vão sofrer com os caprichos de Bolton. Ele nunca precisará sentir o cheiro forte das bombas.

É importante prestar atenção ao que acontece quando todo o poder da Força Aérea dos EUA é usada contra uma cidade. Durante a guerra contra o ISIS em Mosul, os Estados Unidos lançaram uma quantidade enorme de bombas naquela cidade. A Organização das Nações Unidas (ONU) estimou que o bombardeio deixou detritos do conflito algo em torno de oito milhões de toneladas – três vezes a Grande Pirâmide de Gizé. Não se sabe quanto desses detritos são tóxicos. Deve-se ter em mente que, quando os EUA atacou Fallujah em 2004-05, usaram urânio empobrecido. Estudos mostram que o impacto da radiação sobre a população foi pior do que em Hiroshima, onde os EUA lançaram uma bomba nuclear em 1945. Isso é o que significa para uma cidade ser bombardeada pelos Estados Unidos em nosso tempo.

E é o que o Bolton e o restante do gabinete do Trump desejam fazer com o Irã. No Newsclick, minha coluna Radical Journeys fala sobre a ascensão de Bolton, como os europeus querem acalmar a Casa Branca de Trump e o que isso significa para o Irã. Você pode ler aqui.

A Europa está pronta para se render ao Trump. Isso faz lembrar uma carta recente no The Economist, onde um correspondente escreve: “Sugiro que a Europa Ocidental seja o assunto da próxima página do obituário”.

Tenho pensado muito sobre as fotografias tiradas por P. Sainath, membro sênior do Tricontinental, alguns anos atrás de mulheres que trabalhavam nos campos da Índia. Isso fazia parte do extenso projeto de Sainath de documentar o trabalho no campo, que foi para o magnífico Arquivo do Povo da Índia Rural (PARI). Nos últimos meses, o All-India Kisan Sabha liderou algumas lutas importantes no Rajastão e em Maharashtra. Outras lutas estão sendo germinadas. O campo continua lutando pela liberdade. Não se deixou levar pelas políticas e aspirações neoliberais. Outros sonhos motivam esses agricultores e trabalhadores rurais. Os pequenos agricultores produzem 70% de toda comida do mundo. Sua produção é essencial para a sustentabilidade do planeta. Eles colocam esse feito como sua dignidade

Na edição atual do Economic and Political Weekly, há um longo relatório sobre a situação das lutas camponesas em todo o mundo. Rémy Herrera (França) e Lau Kin Chi (China) escreveram este material que vale a pena ler, você pode acessar aqui. É fortemente recomendável.

Por favor, visite nosso site do Tricontinental. Nossa equipe está preparando uma série de dossiês. Nós já temos dossiês disponíveis como da crise na península coreana e das cidades sem água. Logo você terá acesso aos dossiês sobre a Síria e sobre a crise agrária. Estão para sair nos próximos meses. São fáceis de ler, bem projetados e feitos para você compartilhar com seus amigos e alunos, com militantes e vizinhos.

Se você tiver sugestões para melhorar este boletim, por favor me avise.

Cordialmente, Vijay.